25.11.07

Travessa Venezianos


Foto: Paulo Heuser
.
.
Travessa Venezianos

Por Paulo Heuser


Cultivo o hábito, talvez incomum, de fotografar portas e janelas. Também fotografo prédios inteiros, ocasionalmente. Porém, as portas e janelas traduzem o rosto da casa. São bocas e olhos das casas. Conhecemos as pessoas, em parte, pela sua expressão. Assim são as casas. Rachaduras são as rugas, marcas do tempo, marcas de expressão, como muitos preferem. As fachadas das casas são rostos. Fachadas decadentes não necessariamente traduzem abandono. Podem ser fruto do sofrimento ou das dificuldades enfrentadas pelos que vivem lá.

As casas que apresentam marcas de expressão são as mais fotografáveis, pois aparentam ter história. O que haverá por trás daquelas portas decadentes e das venezianas que já não fecham mais? Ali nasceram, ali morreram. Alguém ainda viverá naquela casa, apesar da evidente aparência de abandono?

Talvez nenhum outro (jamais, diria o Presidente) bairro de Porto Alegre tenha casas com a expressão daquelas da Cidade Baixa. Lá as rugas estão aparentes, propositadamente ou não. Rugas podem dar charme ao rosto. Das casas, inclusive. Se o bairro hoje vive noites de inferno, bem diferentes daquelas noites do tempo do Chão de Estrelas, da boemia que se foi, as manhãs de domingo convidam à caminhada pelas ruelas que se confundem e se cruzam. Morei na Cidade Baixa na década de 70. Pensei que conhecia aquele universo oculto atrás das principais ruas e avenidas. Ledo engano.

Aventurei-me sem rumo, neste domingo. Larguei o carro numa rua, cujo nome não sei, e caminhei a esmo, de câmera em punho. Já havia clicado inúmeras fotos, quando cheguei na esquina da rua que desconheço com a Travessa Venezianos. Lembrei-me do nome porque um amigo fotógrafo insistia em mandar-me para lá. Sabedor do meu fetiche fotográfico por portas e janelas, dizia para que eu fosse a tal travessa. Como cheguei lá, não sei. Apenas cheguei. Virei na esquina e parei, abobalhado com o cenário que se descortinava perante minhas lentes. Alguém poderia imaginar uma quadra inteira de casas impecavelmente pintadas, sem nenhum tipo de pichação? Todas rentes ao passeio, o que torna o fato ainda mais improvável. Quem fotografa casas em Porto Alegre sabe que devemos puxar para o lado da decadência, pela pichação. Contudo, naquela abençoada travessa todas as casas açorianas se apresentam perfeitamente pintadas, em cores incríveis, cítricas e alegres. Lembrei-me da Colônia de Sacramento, no Uruguai. Forrei o poncho, com fotos. Saí dali extasiado. Nenhuma rua de Porto Alegre apresenta semelhante atmosfera. Voltamos ao início do século XX, numa rua povoada por imigrantes italianos, boleiros, consertadores de guarda-chuvas e carvoeiros. Foi a zona pobre da Rua dos Venezianos. Pois hoje é um raro reduto de limpeza e civilização em meio à decadência generalizada da grande cidade. Dezessete casas compõem o acervo tombado pelo Patrimônio Histórico. Dezessete casas que assombram pela simplicidade arquitetônica, de total despojamento, que provam que o belo pode ser minimalista. Casas sem eiras, beiras nem tribeiras. Casas de porta e janela que são mais belas que qualquer mansão. São como os rostos que são apenas belos, com maquiagem, sem maquiagem. Lembram a Isabella Rossellini.

Finda a quadra, voltei à cidade. Ficaram para trás as casas da Travessa Venezianos. Voltei ao Brasil, tão carente de coisas simples e limpas como aquela travessa de 17 casas.


prheuser@gmail.com
www.pauloheuser.blogspot.com
www.sulmix.com.br

Marcadores: , , , , ,

26.10.07

Os pés

Foto: Paulo Heuser
Os pés

Por Paulo Heuser


Quem escreve, externando opiniões, sabe que algum dia voltará uma pedrada. É difícil dizer que a primeira pedrada dói mais. Todas doem, pois incomodamos alguém. Indo à chuva, nos molhamos. Contudo, de alguma forma aprendemos a conviver com as pedradas. Fizemos por merecer, portanto devemos achar uma saída, que geralmente gira em torno de escrever à pessoa ofendida e expor nossa posição de forma mais aceitável, se é que isto é possível.

Imagens podem chocar tanto ou mais que palavras. Há filmes famosos que trilharam o avesso da história usual. São os filmes que geram romances escritos, contrariando a ordem natural, onde romances inspiram cineastas. Hoje talvez esteja esquecida nos arquivos do tempo, mas havia uma foto que recheou todos os jornais e periódicos do mundo. Em 8 de junho de 1972, o fotógrafo Nick Ut tirou uma foto da menina vietnamita Kim Phuc, na época com nove anos de idade, correndo nua, completamente queimada, após sua aldeia ter sido bombardeada com napalm. Quem viveu aquela época, lembra-se dela.

Eu caminhava, como de hábito, levando a câmera a tiracolo, quando me deparei com dois pés descalços que se projetavam sobre o passeio, entre floreiras. Estou habituado com qualquer tipo de cena envolvendo gente, pois caminho muito pelo Centro. Porém, não é comum ver apenas pés. As pessoas tendem a abrigar os pés, seja por questões térmicas, seja pelo instinto. Sei lá por que, mas tendemos a proteger mais os pés. Dificilmente alguém deixa de fora apenas os pés. Pés juvenis, o que piorava a cena. Cena que fiz questão de registrar, talvez egoisticamente. Publiquei a cena em sítios de compartilhamento de fotografias. Alguém que as viu, me desafiou a escrever sobre aquela cena. Bem feito, levei nos dedos. Conheço um sujeito que defende a informalidade de todos os contratos, já que o que está escrito não pode ser apagado. Fiquei com vontade de apagar aquela foto, em vão, pois já estava impressa atrás da retina de quem a viu.

Ao lado dos pés havia um saco de salgadinhos, estilo esterquitos. Acabei editando a foto, retirando a cor de tudo que cercava aqueles pés. Não faço a mínima idéia de quem era o dono, ou dona, daqueles pés. Na verdade, não tentei descobrir. Melhor assim, eram apenas dois pés, sem rosto, sem corpo e sem alma. Ainda assim, os pés de alguém, presumidamente. De alguém que já não se importava com os próprios pés, que poderiam ser fotografados ou não. Será que o dono daqueles pés imaginou que eles poderiam se tornar objeto da curiosidade alheia? Ninguém reparou naqueles pés, enquanto cena real do cotidiano. Revelaram-se pela foto, quando passaram a chocar os eventuais espectadores. A cena faz parte do mundo externo, aquele que devemos evitar a todo custo. A foto nos mantém na redoma, longe da desgraça alheia. Lá somos todos cúmplices, por clicar, por observar.


prheuser@gmail.com
www.pauloheuser.blogspot.com

Marcadores: , , , , , , , , ,