18.5.09

522 - Os mais básicos fluidos


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Os mais básicos fluidos

Paulo Heuser


Cynthia McArthur é o exemplo do sucesso. Se há mercado, ela sabe explorá-lo, se não há, ela o cria. Aos 33 anos de idade, Cynthia exibe um currículo dos mais invejáveis. Formada em marketing, possui MBA e diversos cursos de especialização na sua área de atuação, nas melhores instituições da Meca do mercado, os EUA. Ela projeta sucesso até na imagem pessoal. Veste-se entre o formal e a vanguarda e mantém cabelos, pele e unhas no trato. Ela transpira sucesso. Seu mercado de trabalho está nas corporações internacionais que enfrentam algum problema na colocação dos seus produtos no mercado.

Dessa vez, quem solicitou os serviços da Cynthia foi o MedCartel, conglomerado teuto-belgo-helvético-americano. A empresa errou ao estimar estoques e precisou de socorro mercadológico. A consultora chegou à matriz, nos arredores de Antuérpia, na Bélgica, pronta para enfrentar esse novo desafio. O mercado de suprimentos médico-hospitalares ainda lhe era um pouco estranho. Após todas as verificações de segurança, incluindo raios-X, ela foi levada ao salão de reuniões da diretoria, onde o conselho a esperava. Os tec-tecs dos seus sapatos de salto alto contra o piso de madeira encerada contrastavam com o silêncio dos executivos que a aguardavam. Jean Claude Van de Tour a pôs a par da situação:

- Mademoiselle McArthur, o MedCartel tem hoje em estoque uma enorme quantidade de máscaras para proteção contra microorganismos. Um funcionário errou nos cálculos e mandou fabricar, por engano, 123 milhões de máscaras. Temos um depósito cheio de máscaras e não sabemos o que fazer com elas. Se isso não bastasse, o mesmo funcionário mandou fabricar quinze milhões de urinóis. Ele já foi transferido para o escritório avançado do Afeganistão, mas o problema persiste.

Cynthia adorava um desafio, e este, com certeza, era um desafio. Máscaras e penicos, quem diria? Ela pensou, por breves momentos, enquanto tomava o café, observada pelos mais altos executivos do MedCartel, alguns com mais de 1m68 de altura. A idéia veio-lhe de estalo.

- Lancem a moda das máscaras na novela das oito. Digam que os indianos usam máscaras de proteção contra vírus intocáveis, e que os brâmanes usam urinóis sagrados nas suas vacas.

Vinte pares de olhos intrigados a observavam. Van de Tour lhe perguntou:

- O que é novela das oito?

Raios, pensou Cynthia, eles ainda não foram aculturados. Ela tentou encontrar outros sinais de aculturamento, como Friends e Sex and the City. Nada. O que esse pessoal fazia à noite? Teve outra idéia.

- Criem bailes do chope de máscaras e vendam urinóis na entrada. Quem já viu toalete de baile do chope, compra.

- Isso demoraria muito. Nós precisamos de algo para amanhã.

- Contra o que mesmo protege essa máscara?

- Vírus e bactérias, basicamente.

Cynthia ajeitou a franja que ameaçava encobrir seu olho direito e falou, entre os dentes:

- Criem uma pereba nova. Uma terrível, que faça as pessoas se decomporem nos seus mais básicos fluidos pestilentos. É claro, somente a máscara PestMask , fabricada pelo MedCartel, poderá protegê-los contra essa peste moderna. Quando vazarem isso na imprensa, espalhar-se-á como chuchu nas montanhas Ardenas.

Van de Tour fez cara de espanto.

- Hum, bem pensado. A propósito, temos um estoque reforçado de antígenos da influenza, que poderíamos converter em vacinas contra uma nova gripe. Que nome lhe daria? A última foi a aviária.

- Qual é a sua idade, monsieur Van de Tour?

- Tenho 69 anos de idade.

- Porco na cabeça. Pode chamá-la de Gripe Suína. Jogo do bicho também faz marketing.

Cynthia já deixava a sala, em meio aos tec-tecs dos sapatos de salto alto, quando Van de Tour lembrou-se de algo:

- O que faremos com os urinóis?

Sem virar-se, ainda em meio aos tec-tecs, ela gritou:

- Ora, vendam-nos para os doentes decompostos, para que eles recolham seus mais básicos fluidos pestilentos.

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28.4.09

516: Gripe suína e oportunidade


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Gripe suína e oportunidade

Paulo Heuser


O Zé sabe que a gripe suína é coisa séria. Ele leu a respeito da gripe espanhola, no almanaque do Xarope Retrobronquil, e logo traçou um paralelo. Só no Brasil a gripe espanhola matou 130 mil pessoas, inclusive o Presidente da República Rodrigues Alves, em 1919. Algo nessa história despertou o empreendedor que estava adormecido dentro do Zé. Ele não sabia que era um empreendedor até fazer um curso de recolocação de desempregados ministrado por uma ONG de um daqueles setores indefinidos.

A gripe espanhola ocorreu ao término da Primeira Guerra Mundial, quando houve grande movimentação de pessoas entre países. Zé logo percebeu que a gripe suína tem capacidade de proliferação muito maior, pois há incontáveis congressos para parlamentares em Cancun. Esta capacidade de proliferação fez com que ele pensasse em uma forma rápida de empreender, já que os seus potenciais clientes não durariam muito. E o relâmpago empreendedor se abateu sobre ele.

Zé já percebeu que o povo acredita piamente no jornal entre novelas da TV. No dia anterior, o locutor havia tranqüilizado os telespectadores, ao afirmar que não havia motivo para pânico. No máximo, para extremo pavor. Mesmo que na Índia aquele pessoal que se veste com cortinas e passa o dia dançando não sabe o que é gripe suína, o povão daqui já sentiu o perigo. O edil vai ao congresso em Cancun e volta com a pereba. Então, a coisa se espalha rápido. O empreendedor escondido no interior do Zé escancarou e teve a idéia de lançar um remédio alternativo contra a nova praga. Dessas coisas naturebas. Havia de ser algo forte, impactante. Além de indianos vestidos em cortinas, o povo gosta de chás amargos, quanto mais amargos, melhor. Ele rebuscou as mais pavorosas recordações, nos porões da infância. Logo lhe veio à memória o digestivo à base de carqueja e pau-pereira que seu avô tomava. Coisa tão amarga que enrugava as tonsilas – então amígdalas. O Zé odiava adoecer. Não porque tinha de ficar em casa. Porque havia de tomar o chá do vovô, que era secretamente misturado à cachaça da renomada marca Juízo Final, vendida após o entardecer naqueles corredores obscuros da Praça da Alfândega. Aquela mistura era medonha por si só, mas ele procurava por algo ainda pior.

Quem teve infância, e freqüentou bares e armazéns das colônias alemãs, tem pesadelos com uma coisa chamada rollmop. Palavrinha fácil, rollmop. O que é um rollmop? O Zé sabe. É difícil descrevê-lo, mas se parece com aquelas cobras e outras coisas nojentas, dentro de vidros de formol, que os colégios chamavam de museu de história natural. Para iniciar um museu desses, bastava um vidro de rollmops. O verdadeiro rollmop escandinavo era feito com arenque. O daqui, mais moderno, é feito com ovo cozido e qualquer peixe repugnante que sobrou da Sexta-Feira da Paixão. A técnica é simples, enrola-se o meio peixe cru no ovo cozido, prendendo-o com um palito, e mergulha-se tudo num líquido turvo de composição indefinida. Uns põem vinagre, outros pinga, outros nem sabem. O resultado é realmente repugnante. E, o que é pior, há quem coma aquilo e goste. Zé sempre teve pesadelos com o bodegueiro abrindo aquele vidro e retirando um rollmop para o vovô. O ruído da tampa de rosca parecia-se com aqueles da abertura de tumbas ou naves espaciais de filmes B antigos. Remexendo seus traumas de infância, Zé produziu um elixir de efeito, à base do chá de carqueja e pau-pereira, pinga Juízo Final, rollmops em conserva e arroz de leite. A quem lhe pergunta, ele responde que o segredo todo está no líquido turvo onde ficam mergulhados os rollmops. Coisa tão feia e tão ruim há de ser boa.

Zé investiu na imagem. Pôs um sujeito com cara de asteca para vender o elixir, em plena praça. Ele acertou. Vende a rodo. Se cura a gripe suína, ninguém sabe. Mas, quem dele provou, descobriu o que é a verdadeira vingança de Moctezuma.

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