7.2.08

O inalcançável IA32769.098/768-9

Foto: Paulo Heuser

O inalcançável IA32769.098/768-9

Por Paulo Heuser


Diego sentia-se feliz por ter conseguido aquele emprego. Os cinco anos do curso de Marketing, mais os seis anos de Mestrado e Doutorado em Psicologia afinal renderam-lhe os merecidos frutos. Seu pai investiu 132 mil reais na sua educação superior, mas valeu a pena. Conseguiu em emprego que paga setecentos mangos, mais vales transporte e alimentação. Coisa rara.

A segunda-feira começou como outro dia qualquer. Diego serviu-se de café com catchupe e rosquinhas fritas e partiu para a labuta. Colocou os fones e mandou ver. Nada, nem mesmo os 11 anos de educação formal o haviam preparado para o que se seguiu nos próximos três dias. O nome do pesadelo era Indivíduo-Alvo 32769.098/768-9, ou IA32769.098/768-9, para os íntimos. Diego mastigava a rosquinha frita fria quando o sistema contatou IA32769.098/768-9. Pelo canto do olho pode verificar que o IA seria alvo da nova campanha para venda de seguro de viagem para excursões ao centro do Sol. É, aquele mesmo, o Astro Rei. Diego sentia-se particularmente orgulhoso em trabalhar para o Cartel, única organização no planeta, quiçá no Sistema Solar, a vender esse tipo de seguro. Seguro é um negócio complicado. Se você não fizer um, já sabe, algo de ruim vai lhe acontecer. Portanto, melhor fazê-lo. Este foi o argumento que Diego sempre utilizou para convencer seus clientes.

O primeiro alerta surgiu na própria segunda-feira. Algo momentâneo, transiente, pensou Diego. O IA32769.098/768-9 estava fora da rede, por alguma razão incompreensível. Algo transiente, sem dúvida. A situação permaneceu inalterada pelo resto do dia. Na terça-feira a coisa se complicou. Diego nunca enfrentara uma situação como aquela. IA32769.098/768-9 estava em local incerto e não sabido. Algo inusitado, sem dúvida. Diego não conseguiu almoçar naquela terça-feira. Olhava para a rosquinha e via o ID do IA32769.098/768-9 piscando, em vermelho, na tela. Baixou propositadamente a luminosidade do vídeo, para que ninguém ao redor percebesse. Diego trabalho até tarde na noite da terça-feira. Tentou, em vão, estabelecer contato com IA32769.098/768-9. Lá se vai minha promoção, pensou ele.
Diego não dormiu, de terça-feira para quarta. Via o ID de IA32769.098/768-9 por onde passava. Na geladeira, no espelho do banheiro e no teto do dormitório. Não agüentando mais aquela agonia, Diego prometeu a si mesmo procurar o chefe, logo que chegasse ao batente, para confessar seu primeiro fracasso profissional. Não conseguira sequer entrar em rede com o IA32769.098/768-9.

Passava pouco das oito, quando Diego entrou na sala do Chefe.

- Bom dia, meu rapaz. O que deseja?

- Chefe, serei sincero! Não consigo estabelecer contato com um alvo, IA32769.098/768-9. Estou tentado desde segunda-feira pela manhã e nada! O alvo parece estar fora do ar propositadamente. Diego engoliu em seco, ao levantar tal hipótese.

- Como? – gritou o Chefe – Quem faria tal coisa?

Diego encolheu-se visivelmente, antes de continuar:

- Bem, senhor. É o que parece.

- Que nojo! – o Chefe fazia cara de nojo, realmente.

Após passar os olhos pelos relatórios do computador da central, o Chefe deixou-se cair na poltrona imaginando como justificaria tal coisa ao Grande Chefe a Bordo.

Bem, na verdade, eu sou IA32769.098/768-9, sem sabê-lo. Fui veranear alguns dias numa praia onde o celular ficou maravilhosamente mudo. Transformou-se, com num passe de mágica, numa pequena caixinha de plástico, completamente inútil. IA32769.098/768-9 foi feliz, por alguns dias, talvez sem percebê-lo.

Marcadores: , , , , , ,

5.11.07

O extintor



Foto: Fabrício Samahá

.
O extintor

Por Paulo Heuser


Às vezes passam-se anos antes que algum vigilante rodoviário nos peça os documentos do veículo. Então, sem aviso prévio, não param mais de nos parar. Tenho os atraído, sei lá por quê. Ou melhor, até sei. Foram três interceptações em duas semanas. Quem tripula um, sabe que os agentes da lei preferem os carros mais antigos, para virá-los ao avesso, na procura de algum item que não esteja conforme com a legislação de trânsito. Carros novos têm tudo em dia. Pisca para cá, pisca para lá, pisa no pedal do freio, acende faróis, luzes de placas, limpadores de pára-brisas, nada escapa deles. Porém, há um elemento insidiosamente oculto que poderá trair os mais desavisados. É o elemento oculto, também conhecido como extintor de incêndio. Oculto, porque fica acondicionado nos sítios mais inimagináveis, ou menos imagináveis, dos veículos. Responda sem pensar, onde está o seu? Caso souber, qual é a validade dele? Sim, extintores têm prazo de validade, como os litros de leite peróxidos-alcalinos e, por que não dizer, nós mesmos. Neste caso, a ordem é a inversa. Estamos visíveis. Porém, nosso prazo de validade fica oculto, apenas previsível. E aí, as aparências enganam, graças às recauchutadas que se tornam cada vez mais comuns, financiadas em 12 vezes sem entrada. Lipoaspire e corte agora, pague depois. Se o que foi levantado cair antes do último pagamento, há desconto nas prestações vincendas.

Há uma certa polêmica quanto à utilidade dos extintores de incêndio dos automóveis. Pessoalmente, tenho opinião formada. Prefiro sair correndo, deixando o caso para os bombeiros e para a seguradora, ambos com larga experiência em sinistros. Não considero prudente ler o manual do carro, durante o evento, para descobrir onde esconderam o extintor.

Desde que um diligente agente descobriu que o lacre do extintor do meu carro velho havia sido hipoteticamente rompido, tomo cuidado redobrado. Não que eu tenha um carro velho. Tenho dois. Portanto, tenho redobrado empenho em cuidar dos extintores, mesmo que desconheça suas localizações. O Princípio da Incerteza de Werner Heisenberg (1901-1976), Nobel de Física de 1932, mostra que é impossível determinar tanto a velocidade como a posição do extintor, em um determinado instante. Contudo, há uma probabilidade de que o extintor esteja instalado sob um dos assentos dianteiros do carro. Alguns patrulheiros chegam a dar palpites, como: - É um tubo vermelho.

Descobri uma forma para nunca me pegarem de calças curtas. Ou, pelo menos, sem o extintor na validade. Presenteio-me com dois extintores de incêndio, a cada aniversário. Deixo-os à mão. Faço como fiz no sábado. Vinha lá pela RS-4-qualquer coisa quando um agente me parou. Antes que conseguisse abrir a boca, alcancei-lhe o extintor. Coitado, o homem ficou desolado. Seu lábio inferior caiu perceptivelmente. Pensei que iria chorar.

Há um novo tipo de extintor, bem mais caro, fornecido pelo parente de alguém que chegou a conclusão de que seria muito mais eficiente, caso fosse encontrado, caso o motorista não saísse correndo na hora do sinistro. Houve também a época do ridículo kit de primeiros socorros, também fornecido pelo parente de alguém. Depois que alguém já havia vendido todo o estoque, a obrigatoriedade caiu, inexplicavelmente, pois alguém julgou desnecessário tê-los. Noutro dia comentavam que poderia ser interessante a obrigatoriedade de conduzirem um kit de talas para imobilização dos membros dos animais eventualmente atropelados, do pardal ao elefante. Com prazo de validade, naturalmente.

Deveríamos ostentar nosso prazo de validade, como fazem os extintores. Chega o momento na vida em que os planos de saúde e as seguradoras passam a nos olhar de modo diferente. Querem ver o extintor. De nada adianta sair correndo ou retocar a aparência. Eles querem verificar se estamos na validade. E se o lacre for rompido?


prheuser@gmail.com
www.pauloheuser.blogspot.com
www.sulmix.com.br

Marcadores: , , , , , , , , ,