6.4.09

512 - Separação à distância

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Separação à distância

Por Paulo Heuser

Quem anda por locais onde há grande afluência de pessoas pode observar um fenômeno interessante. Hoje se briga à distância. Na saída dos bancos, há aqueles que berram ao celular cobrando depósitos que não ocorreram e saques que ocorreram. Os orelhões deixaram de ser os muros das lamentações dos negócios malsucedidos. Hoje, estão às moscas, seja pelo desuso, seja pela sujeira. Os que usam orelhões correm o risco de ficar grudados neles.

Noutro dia fui ao WC de uma entidade e ouvi parte do lado A de um diálogo que era travado entre o ocupante de uma daqueles compartimentos e o que parecia ser uma mulher, no lado B, à distância, espero. Era uma cantada. Uma primitiva e comum cantada. Seria completamente comum, se não fossem algumas estranhas modulações na voz do Dom Juan sanitário, talvez provocadas por eventual esforço esfincteriano, no melhor estilo “o balão vai subiiiindo”. Fiquei a imaginar se a outra parte sonhava com o local onde seu interlocutor estava. Lá pelas tantas, ele disse que seria algo vindo da TV. Seria o som do acionamento da descarga do vaso? Um documentário sobre as Cataratas do Iguaçu, quem sabe?

Outras vezes o assunto é briga de casal. O celular aumenta confortavelmente a distância entre os ex-apaixonados. Pelo telefone é muito mais fácil terminar o namoro. E-mail é melhor ainda. Foi-se o olho no olho. No máximo, webcam. Antigamente, dizia-se que os casais haviam dado um tempo à relação. Esse tempo era indefinido, geralmente infinito. Hoje, esse tempo é o tempo para mandarem um torpedo ou ligarem para os ex. A redes sociais de relacionamento permite aos ex a bisbilhotice antes só permitida pelas redes humanas de fofocas. O você não imagina quem eu vi com a Betinha deu lugar ao você já viu a página da Betinha?

Há formas insidiosas de dinamitar o prestígio dos ex. Eu já havia percebido que pessoas descontentes usam as redes domésticas sem fio como forma de protesto contra algum produto que gerou descontentamento. Um vizinho havia identificado sua rede doméstica como talcarro_é_uma_bosta. Em grandes condomínios, ou ao lado de praças, esses nomes de protesto podem atingir grande público. Não deixa de ser uma forma surpreendente de propaganda de protesto. Imagine só uma rede chamada Tonhão_não_comparece.

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4.2.09

499,999 e 9/10 - Estímulos madrugadores

Foto: Wikipedia
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Estímulos madrugadores

Por Paulo Heuser


É Claro que levei um susto. Quem não levaria? Talvez um notívago, um obstetra ou um porteiro de obscuro e nada Claro lupanar? Recebi o torpedo às 04h15. Ouvi o toque ao longe pois dormia profundamente, mas ficou bem Claro que se tratava de aviso sonoro da recepção de torpedo. Sobressaltei-me, é Claro. Tentei voltar a dormir, mas não consegui, pois o misterioso torpedo madrugador não saía da minha cabeça. O telefone móvel encontrava-se ao alcance da mão, mas eu relutei em pegá-lo, pois temi perder o sono que eu já havia perdido. Após alguns minutos de luta contra a insônia, ficou Claro que, se não olhasse a mensagem, passaria o resto da madrugada em Claro. Poderia ser apenas uma bobagem, mas e se não fosse? Poderia ser o golpe do sorteio do Gugu, ou o do falso seqüestro, ou pior, o do falso seqüestro do Gugu.

Com o pensamento mais Claro, abri o flip e constatei que efetivamente eu havia recebido um torpedo madrugador. Tateei pelos óculos e pus-me a ler. Descobri o seguinte texto, enviado pelo telefone 4001: “Loucura!! 36HP O melhor estimulante sexual so R$ 49,50 Ligue (51)2112-2525 e receba onde indicar!!!!!!...”. Às quatro e quinze da matina!

A princípio, fiquei sem reação. Fiquei sentado, no escuro, estudando algumas alternativas. Claro, o primeiro impulso poderia ser o de jogar o telefone pela janela. Porém, ela estava fechada, e o impulso causaria duplo prejuízo. Eliminei também a vontade de jogá-lo no vaso sanitário e acionar a descarga. Claro que também não seria uma opção racional, pois os desentupidores cobram por centímetro, ou fração. Após mais alguns instantes, eu já via tudo mais Claro. Eu não entendia por que enviaram aquele torpedo àquela hora. Afinal, poucos clientes da operadora gostam de ser acordados às 4h15 com um torpedo vendendo 36HP. Fiquei a imaginar a cara da Dona Basiléia, no alto dos seus 92 anos, recebendo aquele torpedo madrugador e tentando decifrar o que é um 36HP. Depois, durante o dia, descobri que muitos outros foram brindados com a missiva sexual. Claro, ninguém gostou.

Aprendi algumas coisas com esse evento. Não há mais hora para fazerem propaganda. Tampouco querem saber se há uma criança no outro lado. O importante é chegar ao potencial cliente, seja como for, seja quando for. Não adianta trocar de número do celular, pois essas mensagens são enviadas em massa. Só um aspecto ainda me intriga no ocorrido. Por que mandaram a mensagem às 4h15? Se a coisa não rolou até aquela hora, não há 36HP, por melhor que seja, que possa resolver o problema.

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13.10.08

475 - Gritos no silêncio



Foto: Wikipedia
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Gritos no silêncio

Por Paulo Heuser


As salas de espera são seu habitat. Eles ou elas atacam nos locais onde reina algum silêncio. São os gritadores. Eles não têm controle sobre o volume da voz. Só têm duas intensidades: estupidamente alto ou espantosamente alto.

Eu tenho azar, no que diz respeito às salas de espera. Chego lá, dez minutos antes do horário marcado e espero, espero e espero. Salas de espera servem para isso, senão seriam salas de recepção ou de atendimento. O único que não espera na sala de espera é o homem dos brindes do laboratório farmacêutico. Ele chega e vai entrando, após um rápido papo com a recepcionista. Os extintos vendedores de enciclopédia gozavam do mesmo privilégio, pois eram confundidos com os homens do laboratório, pois usavam pastas muito semelhantes.

Se eu ficasse esperando com pessoas normais, tudo bem. O problema é que sempre surge um gritador. Os mais experientes chegam com pelo menos uma hora de antecedência, pois gostam da companhia das outras pessoas: os ouvintes. Na semana passada foi a mesma coisa de sempre. Cheguei um pouco antes do horário marcado e me sentei numa poltrona que pareceu confortável. O silêncio já fazia efeito, pois minha cabeça começou a pender para o lado. Eu passava de beta para alfa, quando a gritadora entrou na sala de espera. O boa tarde ecoou pelo prédio todo. Uma criança que acompanhava a mãe escondeu-se sob um banco e pôs-se a chorar. Se houvesse cães, teriam ganido e fugido. O grito me arrancou do quase-alfa e me trouxe a pavorosa realidade. Ela não era vendedora de remédios e deveria esperar como todos os demais.

- Vim tentar um horário mais cedo, queridinha! – trovejou a gritadora – Se não tiver, não faz mal. Eu espero!

A gritadora mergulhou numa Caras velha e sebenta. O hino de um time de futebol anunciou que alguém queria falar com a gritadora ao celular.

- Fala mocréia! – novo trovão oral.

- Quem fala? – ou seria quem ruge?

- É a Telminha, cê tá brincando, não tá?

- Engano? – a gritadora olhou para o aparelho enquanto gritou:

- Mal-amada! Desligou, só porque foi engano!

Refeita da ligação ela olhou em torno à procura de uma vítima. Fingi que dormia. Com o canto do olho fechado consegui ver que a gritadora voltou à Caras. Foi passando as páginas enquanto molhava os dedos na língua. Novo rugido:

- O quê? A Mulher Rabanete se casou novamente? Cê viu só? – dando um cutucão com o cotovelo na mulher sentada ao lado. Esta ignorou a provocação. A gritadora ignorou a indiferença e voltou à carga com seu assunto preferido: doença.

- Menina, eu vim da casa da comadre que pegou frieira na boca. Coisa feia! Ela não pode nem falar. Eu falei para ela chupar abacaxi.

A sala de espera continuou em silêncio. Ninguém mordeu a isca. Porém, ela não desistiu, já que um gritador nunca desiste, nem com o sugador de saliva colocado na boca. A Telminha só reduziu o volume uma vez na vida, quando o dentista colocou uma forma com molde de gesso na boca. Não que ele precisasse do molde. Precisava de alguns segundos de silêncio. Telminha continuou virando as páginas enquanto narrava a revista:

- Aqui não diz, mas eu soube de fonte segura que a Narinha pegou lúpus. Cê sabe o que é lúpus? – novo cutucão na vizinha de banco. Como não obteve resposta, mudou de assunto.

- Amanhã estou embarcando para Macapá. Tem um sujeito lá que quer que eu case com ele. Ele só funciona com aqueles remédios, mas se ele pode comprá-los, que mal faz?

Os gritos da mulher tornaram-se insuportáveis. Ora narrava a Caras, ora complementava com as doenças sei lá de quem. Todos que ela conhecia estavam doentes. Foi demais para mim. Eu não agüentava mais aquela gritaria. Com um megafone na mão essa mulher poderia se tornar uma arma sindical de dobrar qualquer patrão. Resolvi desistir da consulta e voltar noutro dia.

- Será que o Dr. Sérgio teria horário disponível amanhã? – perguntei à recepcionista.

A gritadora reagiu de pronto:

- Dr. Sérgio? Aqui não é o instituto de beleza da Ilse?

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5.7.08

423 - Onde está você?



Foto: Wikipedia
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Onde está você?

Por Paulo Heuser


Todo dia surgem inovações tecnológicas que maravilham os tecnófilos. Há gente que não gosta de permanecer horas a fio olhando para pequenas telas, enquanto apertam minúsculos botões. Porém, a maioria gosta. Um habitat dos tecnófilos é o saguão do aeroporto. Eles usam mochilas de acampamento, trocando o saco de dormir pela parafernália eletrônica. Ambos são muito úteis, nos dias de hoje. O sujeito pode repousar, enfiado no saco de dormir, enquanto espera o aeroporto abrir. Para passar o tempo, acessam os sítios de tecnologia da Internet, onde encontram novas parafernálias eletrônicas, que exigem novas mochilas. Por falar nelas, algumas estão recheadas com baterias para os inúmeros dispositivos que fazem parte do uniforme de executivo moderno. Há modelos que foram dotados de painéis solares, carregando as baterias enquanto o usuário anda ao Sol, ou seja, nunca.

Quem carrega todos esses trastes está em um de três lugares: na sala de espera do aeroporto, na sala de espera dos clientes ou na sala de espera de casa. Eles nunca chegam, estão sempre esperando. Os tecnófilos sofrem muito com a depressão tecnológica provocada pela descoberta de que a sua parafernália eletrônica não é mais a mais moderna. Lançam algo mais avançado, e, o que é pior, sempre há pelo menos duas novas gerações de trastes, prontas para lançamento, na espera apenas pelo obsoletismo da anterior. Os compradores das tralhas têm apenas uma semana de prazer da novidade. Após o descanso do sétimo dia, tornam-se aqueles que têm o modelo anterior. Poucas coisas vexam mais um tecnófilo que a propriedade de um modelo anterior.

Os fabricantes das tralhas apelam para alguns artifícios, para venderem os novos modelos da parafernália eletrônica. Eles contratam pessoas com a aparência de tecnófilos bem sucedidos, que andam pelas salas de espera dos aeroportos, exibindo o objeto do desejo daqueles que adoram telinhas e ícones. As tralhas já vêm sem botões. Basta fincar-lhes a unha. Os mais sofisticados salões de estética já oferecem o trato de unhas compatível com iPhone Touch, maravilha que combina as funções de computador e uma série de outras coisas. Ah, é um telefone. De toque?

O melhor das tralhas eletrônicas ainda está por vir. Você deixará de ser apenas um ponto na multidão. Será um ponto identificado na multidão identificada. Seja através do chip do seu celular, seja através de reconhecimento biométrico, eles saberão onde você está. Quem são eles? Ora, são eles. Os que querem lhe vender algo. Você entrará numa loja de departamentos e o computador do marketing perceberá sua presença. Ele consultará o banco de dados, pesquisando quais foram suas últimas compras, seu crédito, seus hábitos, hobbies, etc. Aí você estará ferrado. Seu cadastro poderá indicar que é louco por lingiere feminina, graças a sua namorada, que levou seu celular por engano, no dia em que ela fez compras naquela loja. O sistema de som ambiental anunciará, a plenos pulmões:

- Boa tarde, Sr. Fulano. Recebemos novos modelos de espartilhos para seu manequim, na cor que você usa!

No restaurante, a coisa poderá ficar igualmente complicada, mesmo sem troca de identidade. O garçom poderá lhe trazer um cardápio alternativo, após verificar no banco de dados o resultado do seu último exame de colesterol. Você pedirá camarão frito e ele lhe trará peito de frango cozido no microondas. Você pedirá vinho, ele lhe trará suco de uva, pois o computador saberá que você entrou pelo estacionamento. Mesmo chegando de táxi, poderá ter problemas. Quem pedir um vinho mais caro, para impressionar a mulher que o acompanha, poderá ouvir:

- Excelente escolha, senhor! Porém, devo avisá-lo de que o sistema informa que esse vinho está além das suas possibilidades de consumo. Pelo seu retrospecto enológico, o senhor não saberá apreciar a bebida. Ele lembra também que a prestação do carro vence na segunda-feira, e a do motel, cuja última fatura o senhor parcelou, na terça. Para beber, lhe recomenda cerveja.

Florescerá o mercado do celular-laranja. Venderão aparelhos com chips que levarão ao cadastro de monges contemplativos enclausurados, que nada consomem, além de comida e túnicas simples. Quando o reconhecimento biométrico for implantado por toda parte, as burkas – vestimentas muçulmanas que cobrem todo o corpo – serão muito utilizadas, inclusive pelos homens, na tentativa de passarem incógnitos.

Ontem, tememos os vendedores de enciclopédias. Hoje, tememos os gerúndicos telemarketeiros. Amanhã, temeremos a sombra. Ela pode ser biometricamente reconhecida.

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27.5.08

404 - "p/0,31 imp."


Lago Baikal. Foto: wikipedia
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“p/0,31 imp.”


Por Paulo Heuser



O característico som de duas marteladas anunciava a chegada de um torpedo - frase que teria significado bastante diverso, há 20 anos. Todos se poriam a correr, provavelmente. O torpedo do celular abriu um novo meio de comunicação entre os provedores de serviços e as suas vítimas, como eu. Eu sequer sabia da existência de algo chamado Yavox. De repente, descobri ser um cliente involuntário dele, também conhecido como vítima.

A mensagem avisava que, como eu havia solicitado novidades, participaria de uma promoção “p/0,31 imp.”. Coisa auto-explicativa. O que seria “p/0,31 imp.”? Seria impressão? Ou então, impulso de esganar quem me enviou aquilo? Antevendo prejuízo - pela presença do “p/0,31” - liguei para o telefone informado na mensagem, para cancelamento daquilo que não solicitei. Prontamente a Embratel me avisou que o número 4005-1122 não existia. Havia um número para o qual poderia enviar um torpedo, informando CANC, para cancelamento do serviço que não solicitei. No desespero, enviei, para imediatamente receber outro torpedo, esclarecendo que eu deveria informar o serviço que eu queria cancelar. Boa pergunta! O que mesmo eu não contratara? Desisti da comunicação inteligente, com a tal de Yavox, e apelei para a operadora do celular.

Maravilha! Não esperei nem um minuto, enquanto ouvia as explicações de praxe. Teclei nove, fui atendido, e uma operadora (humana!) muito gentil ouviu minha história triste, pesquisou a solução e me orientou sobre o cancelamento do serviço. Recebi um protocolo de atendimento 2008cobraselagartos e agradeci, desligando e partindo para efetuar um CANC do “p/0,31 imp.”, antes que o prejuízo se mostrasse maior. De nada serviu o argumento de que eu não contratara o “p/0,31 imp.”. Uma vez ativado, era como beiço de quem comeu mocotó – grudava! Tentei enviar CANCs para o número 49094, conforme instruído, de todos os jeitos, mas o “p/0,31 imp.” permanecia lá, inabalável. Liguei novamente para a operadora.

Só faltou a atendente chorar comigo. Ela também não fazia a mínima idéia de como remover o grude do “p/0,31 imp.”. Recebi novo protocolo 2008cobraselagartos e fui instruído a aguardar a ligação de um engenheiro que deveria desgrudar o “p/0,31 imp.”. O engenheiro não ligou. Sabendo que eu não conseguiria dormir, pensando no “p/0,31 imp.”, apelei para o palavrão. Funcionou! Recebi um torpedo informando sobre a minha condição de ex-assinante daquilo que nunca assinei. Aliviado, me recompus. Chegou a hora de correr atrás do prejuízo causado pelos 17 torpedos enviados para cancelar o “p/0,31 imp.”. Fui buscar auxílio no sítio da tal de Yavox. O navegador do micro ficou pensando, durante algum tempo, para me informar que estava sem conexão com a Internet. Tentei novamente. Nada. Tentei o sítio da operadora de celular. Nada. Liguei uma coisa à outra, e veio o medo. Um medo denso, profundo, mudo e ardente. Eu nem sabia que um medo podia ser tudo isso, ao mesmo tempo. Ao cancelar o “p/0,31 imp.”, eu provavelmente cancelara algo mais, como minha conexão ao abominável mundo novo.

Fiquei sentado, pensando no que fazer. Da cozinha vinha um grito: “- Paiêêê!!! A geladeira não abre!!!”. Céus, a coisa era pior do que parecia inicialmente. Bom, pelo menos a televisão ainda funcionava. Tanto funcionava, que ainda consegui ouvir aquele infernal comercial que dizia, repetitivamente, que na Sibéria não tem nada disso. Ouvi-lo, me deu novo ânimo. Se não havia nada disso lá, tampouco havia “p/0,31 imp.”! Peguei o telefone, para ligar para a Aeroflot e comprar meu bilhete para a Sibéria. Estava mudo.

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7.2.08

O inalcançável IA32769.098/768-9

Foto: Paulo Heuser

O inalcançável IA32769.098/768-9

Por Paulo Heuser


Diego sentia-se feliz por ter conseguido aquele emprego. Os cinco anos do curso de Marketing, mais os seis anos de Mestrado e Doutorado em Psicologia afinal renderam-lhe os merecidos frutos. Seu pai investiu 132 mil reais na sua educação superior, mas valeu a pena. Conseguiu em emprego que paga setecentos mangos, mais vales transporte e alimentação. Coisa rara.

A segunda-feira começou como outro dia qualquer. Diego serviu-se de café com catchupe e rosquinhas fritas e partiu para a labuta. Colocou os fones e mandou ver. Nada, nem mesmo os 11 anos de educação formal o haviam preparado para o que se seguiu nos próximos três dias. O nome do pesadelo era Indivíduo-Alvo 32769.098/768-9, ou IA32769.098/768-9, para os íntimos. Diego mastigava a rosquinha frita fria quando o sistema contatou IA32769.098/768-9. Pelo canto do olho pode verificar que o IA seria alvo da nova campanha para venda de seguro de viagem para excursões ao centro do Sol. É, aquele mesmo, o Astro Rei. Diego sentia-se particularmente orgulhoso em trabalhar para o Cartel, única organização no planeta, quiçá no Sistema Solar, a vender esse tipo de seguro. Seguro é um negócio complicado. Se você não fizer um, já sabe, algo de ruim vai lhe acontecer. Portanto, melhor fazê-lo. Este foi o argumento que Diego sempre utilizou para convencer seus clientes.

O primeiro alerta surgiu na própria segunda-feira. Algo momentâneo, transiente, pensou Diego. O IA32769.098/768-9 estava fora da rede, por alguma razão incompreensível. Algo transiente, sem dúvida. A situação permaneceu inalterada pelo resto do dia. Na terça-feira a coisa se complicou. Diego nunca enfrentara uma situação como aquela. IA32769.098/768-9 estava em local incerto e não sabido. Algo inusitado, sem dúvida. Diego não conseguiu almoçar naquela terça-feira. Olhava para a rosquinha e via o ID do IA32769.098/768-9 piscando, em vermelho, na tela. Baixou propositadamente a luminosidade do vídeo, para que ninguém ao redor percebesse. Diego trabalho até tarde na noite da terça-feira. Tentou, em vão, estabelecer contato com IA32769.098/768-9. Lá se vai minha promoção, pensou ele.
Diego não dormiu, de terça-feira para quarta. Via o ID de IA32769.098/768-9 por onde passava. Na geladeira, no espelho do banheiro e no teto do dormitório. Não agüentando mais aquela agonia, Diego prometeu a si mesmo procurar o chefe, logo que chegasse ao batente, para confessar seu primeiro fracasso profissional. Não conseguira sequer entrar em rede com o IA32769.098/768-9.

Passava pouco das oito, quando Diego entrou na sala do Chefe.

- Bom dia, meu rapaz. O que deseja?

- Chefe, serei sincero! Não consigo estabelecer contato com um alvo, IA32769.098/768-9. Estou tentado desde segunda-feira pela manhã e nada! O alvo parece estar fora do ar propositadamente. Diego engoliu em seco, ao levantar tal hipótese.

- Como? – gritou o Chefe – Quem faria tal coisa?

Diego encolheu-se visivelmente, antes de continuar:

- Bem, senhor. É o que parece.

- Que nojo! – o Chefe fazia cara de nojo, realmente.

Após passar os olhos pelos relatórios do computador da central, o Chefe deixou-se cair na poltrona imaginando como justificaria tal coisa ao Grande Chefe a Bordo.

Bem, na verdade, eu sou IA32769.098/768-9, sem sabê-lo. Fui veranear alguns dias numa praia onde o celular ficou maravilhosamente mudo. Transformou-se, com num passe de mágica, numa pequena caixinha de plástico, completamente inútil. IA32769.098/768-9 foi feliz, por alguns dias, talvez sem percebê-lo.

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14.1.08

Abraços alternativos

William-Adolphe Bouguereau (1825-1905) - Two Sisters (1901) - Wikipedia
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Abraços alternativos

Por Paulo Heuser


Toninho e Tininha enriqueceram. Não desperdiçaram a maior oportunidade das suas vidas. Pularam no vagão dos passageiros da fortuna enquanto o trem passava. Passando para linguagem um pouco menos figurada, eles fizeram um ótimo negócio.

Tudo começou quando preparavam um trabalho de Emotividade Psicomercadológica III. Eles perceberam o mercado da solidão. Observavam o hábito de mandar um abraço, enraizado nos relacionamentos que ficam entre os negócios e a paixão. Pessoas de negócios mandam abraços, via e-mails ou telefone, quando já conhecem o interlocutor. Mandam abraços, no plural, pois um só poderia parecer íntimo demais. Curiosamente, essas pessoas não costumam se abraçar quando se encontram pessoalmente. Exceções são os vendedores e os políticos, que, no fundo, são a mesma coisa. Uns vendem coisas reais, outros não. Abraçando-se, enquanto preparavam o relatório, perceberam também que o abraço é uma forma universal de transmitir algo. Os amantes transmitem tudo aquilo que quase todo mundo sabe o que é através de um abraço, um demorado abraço. Toninho e Tininha estavam abraçados desde as sete da matina, do dia anterior.

Inimigos de palanque, quando pegos em público, trocam abraços molengas que, mesmo assim, transmitem coisas impublicáveis. Velhos amigos trocam abraços que falam por si só. Mães e pais abraçam sua prole como se abraçassem o mundo, transmitindo segurança e afeto. Tininha foi mais a fundo na coisa, e descobriu que ninguém sabe exatamente como se transmite emoções através do abraço. O fato é que conseguimos. Pesquisando, Tininha observou que havia pessoas que necessitavam desesperadamente de um abraço. Ela própria já enfrentara essa situação, quando Toninho passara o fim de semana visitando os pais. Foram 36 horas de extrema solidão, que levaram Tininha ao apartamento do Luis. Ela foi pega pela extrema crise de abstinência de abraços. Ainda bem que o Luis estava lá.

O clique propriamente dito veio quando Toninho fechou o flipe do celular, após falar com o primo Jorge. – Uma abração, Jorge! – Foram suas últimas palavras. Não, ele não morreu, apenas encerrou a ligação. Tininha ficou ali, muda, olhando, ora para o celular, ora para a mão de Toninho que a mantinha no abraço. Toninho pensou que Tininha havia perdido o juízo, quando ela pediu que ele vestisse roupa branca e que buscasse um saco de carvão. Ela abiu o saco, passou as mãos no pó de carvão e veio na direção do imaculado e apavorado Toninho, que apenas gritava: - O que é isso, ficou louca? - Ele não conseguiu evitar que Tininha o abraçasse com aquelas mãos imundas de carvão. Quando ela finalmente parou de abraçá-lo, Toninho lembrava um cão dálmata. Havia vestido o casaco de peles da Cruela. Tininha ordenou, sem mais explicações, que ele tirasse roupa, que foi levada ao apartamento do Luis, notório abraçador substituto e nerd de plantão do laboratório de Física da universidade. Luis ouviu atentamente as explicações da Tininha, enquanto tentava abraçá-la. Meio a contragosto, desistiu dos abraços e pôs mãos à obra. Levou a Tia Eulália, costureira, para o laboratório e, após duas semanas ininterruptas de trabalho, saíram de lá com um protótipo do que seria o maior sucesso de vendas desde o maldito tamagoshi. Encurtando a história, até por uma questão de espaço, eles inventaram uma roupa de abraços. O usuário número um simulava um abraço, vestindo aquela roupa cheia de sensores, e discava para o celular do usuário dois. Este recebia um aviso de abraço entrante e conectava o celular com a sua roupa de abraços. A roupa copiava o abraço original, inclusive simulando a temperatura corporal, mediante pagamento de uma pequena taxa adicional.

Apesar de a roupa não transmitir emoções, foi um estouro de vendas. Todo mundo queria uma daquelas roupas, mesmo aqueles que passavam todo o dia grudados, em eterno abraço. Havia gosto de traição, no uso da roupa. Luis passou a ligar para a Tininha, mandando abraços, sem que Toninho soubesse, é claro. Toninho teve a idéia de lançar um tele-serviço de abraços. O usuário ligava para uma central, que, por sua vez, ligava de volta, transmitindo um abraço aleatoriamente escolhido entre as chamadas. Logo pipocaram as roupas falsas na 25 de Março. O segundo lote até que fez sucesso. O primeiro apresentou um sério problema. O fornecedor chinês inadvertidamente simulou um abraço de animal, em vez do abraço humano. Um abraço de urso.

As imitações se tornaram cada vez melhores, algumas até incluindo novas funcionalidades, como um gemido suave. Em efeito melissinha, as vendas começaram a cair. O fato que determinou o fim da roupa de abraços foi o lançamento de um livro escrito por um cientista esquimó, que defendia o abraço direto, interpessoal e presencial. Ou seja, o velho e bom amasso.


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