12.4.08

383 - A vida de Bárion


Oak Ridge (Foto: Wikipedia)
A vida de Bárion

Por Paulo Heuser


Bárion não sabe exatamente onde nasceu. Sabe apenas que viaja sozinho, desde que perdeu seus companheiros. Ele gostava especialmente do pequeno Lépton, que corria alegremente em torno dele. Bárion foi arrancado de uma comunidade que cresceu além do que ela própria poderia suportar, e foi expulso, sem destino certo. Nem o seu fiel companheiro Férmion o protegeu na hora da expulsão. Isso que eles mantinham uma relação realmente íntima.

O solitário Bárion vaga pela pequena eternidade que teve algum início, sem consciência de que sua vida terá um fim, próximo ou distante. É a lei natural das coisas. Antes a situação estava muito mais estável. Essa estabilidade durou mais do que a memória de Bárion poderia recordar. Ele desconfiava de que fora expulso por se manter neutro. Lá não havia mais lugar para quem ficava sobre o muro. O mundo estava em convulsão, e apenas os que tomavam algum partido eram mantidos nas comunidades. Havia forte coesão entre eles. Originado da família Hádron, Bárion tem parentes nada neutros.

O que Bárion não imagina é que ele mudará o curso da história. Logo ele, o solitário viajante errante, ao qual ninguém atribuiu valor. Por vezes é assim mesmo, alguém que aparentemente está apenas de passagem acaba criando uma revolução. Bárion estaria apenas de passagem, em outros tempos. Porém, algum evento dramático colocou outra comunidade no seu caminho. Com todo esse espaço vazio, quiseram o destino e a intervenção humana que o improvável acontecesse. Bárion entra com tudo, no meio daquela comunidade, sem pedir licença nem receber permissão. Não passa despercebido. A comunidade se agita, incomodada pela presença imprevista e indesejada do Bárion. Urânia nunca mais será a mesma, após a chegada dele. Em pouco tempo aquela até então estável comunidade divide-se em duas: Kriptônia e Bária - talvez assim batizada em homenagem ao provocador de toda essa revolução.

Além de dividir Urânia, Bárion consegue arregimentar dois seguidores, também Hádrons, como ele próprio. Expulso novamente, Bárion segue sua trajetória solitária. Assim fazem seus novos seguidores, um em cada direção. Novamente acontece o improvável. Aproximadas pelo evento violento, novas comunidades se põem na trajetória involuntária de Bárion e seus novos seguidores. Cada um divide novas sociedades e arregimenta dois novos seguidores, multiplicando o processo. A divisão das comunidades produz muito calor.

São 8h15m43s do dia 6 de agosto de 1945. Bárion, um nêutron, viaja de um átomo de Urânio 235, fissionado em átomos de Kritônio 92 e Bário 141, Devido à massa crítica obtida pela aproximação de duas cargas de U235, no interior da bomba atômica Little Boy, Bárion encontrará outros átomos pelo caminho, provocando novas fissões, que liberarão outros nêutrons como ele próprio, dando seguimento à reação em cadeia, gerando uma imensa quantidade de calor que pulverizará a cidade japonesa de Hiroshima.

Imitando o mundo das partículas, também há Bárions nas comunidades humanas, como os nêutrons térmicos da fissão nuclear. Chegam nas comunidades, como quem não quer nada. Parecem neutros. Inserem-se no núcleo social das comunidades e desestabilizam-nas, provocando a fissão social. Dividem a comunidade em partidos, mandando afiliados dividirem outras comunidades, numa reação em cadeia que não deixa nada de pé.


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17.7.07

Terraplenada

Publicada no jornal Gazeta do Sul, de Santa Cruz do Sul, em 26/07/07:
http://www.gazetadosul.com.br/default.php?arquivo=_noticia.php&intIdEdicao=1221&intIdConteudo=79380
Terraplenada

Por Paulo Heuser


O recente terremoto ocorrido no Japão trouxe imagens impressionantes de devastação da infra-estrutura das cidades atingidas. Fica-se a imaginar por que as pessoas voltam para suas casas completamente destruídas. Sofrerão novamente, com novos abalos, nos próximos anos? Não têm medo? Trata-se de caso diferente daquele observado nas devastações provocadas pelas guerras, civis ou forâneas. As guerras geralmente apresentam um fim, comemorado com o povo nas ruas. Algumas não terminam, caso dos conflitos étnicos ou de interesse alienígena, como os do Oriente Médio. No geral, após as guerras a população reconstrói suas casas, na esperança de que novo conflito não virá. Terremotos se repetem, inesperadamente. Cataclismos provocados pela natureza e as guerras são eventos distintos, tanto pela sua previsibilidade como pela sua repetição.

Às vezes o raio cai duas vezes no mesmo lugar. Tome-se o exemplo da linda cidade de Reims, na região de Champagne, França. Reims foi palco de terríveis combates nas duas guerras mundiais. Quem hoje anda pelas suas belas ruas arborizadas, nada percebe, senão as marcas deixadas nos monumentos, como na fantástica catedral de Notre Dame. Reconstruíram a cidade, duas vezes.

O que dizer do povo de Nagasaki e Hiroshima, no Japão, e Dresden, no vale do Elba, Alemanha? Viram o fogo consumir suas cidades e seus habitantes. As duas primeiras foram o teste de campo das primeiras bombas atômicas, matando 170 mil pessoas. A terceira, alvo de duas mil toneladas de bombas, muitas incendiárias, matando cerca de 200 mil pessoas, pelas estimativas pós-guerra. Nos três casos, como sempre acontece nas guerras, quem sofreu foi a população civil. Mesmo nos modernos bombardeios cirúrgicos quem sofre é a população civil, pois destruído o poder controlador, assume a barbárie do terror dos grupos que tentam assumir o controle. Talvez por isso, as alterações mais recentes da Convenção de Genebra se focaram nos direitos humanos da população civil.

Uma breve leitura das manchetes nos permite observar que nossas instituições foram terraplenadas, em decorrência de uma guerra civil não declarada, apenas lutada. Somos uma nova Dresden, com as construções em pé, apesar de pichadas, e as instituições arrasadas pelo constante e ininterrupto bombardeio com artefatos de efeito moral. Não aquelas bombas de efeito moral utilizadas no controle dos distúrbios. No nosso caso, são bombas que eliminam a ética, queimando as instituições e a norma. Nagasaki, Hiroshima e Dresden foram arrasadas em apenas um dia de trabalho das forças aéreas aliadas. Nós somos bombardeados faz muito tempo, silenciosamente, lentamente. Contudo, o estrago já se faz ver, em todas as instituições que compõem o País. As cidades japonesas foram bombardeadas pelos norte-americanos. Dresden, pelos ingleses e pelos norte-americanos, a pedido da Rússia. E nós, somos bombardeados a mando de quem?

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