29.9.08

470 - Brócolos com o quê?


Foto: Wikipedia
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Brócolos com o quê?

Por Paulo Heuser


Miriam conseguiu esse emprego na agência que avalia a conformidade dos alimentos com as normas técnicas aplicáveis. Pudera, estudou feito uma louca - Engenharia de Alimentos, MBA em marketing e todos aqueles cursos de extensão em desinibição oral, biofidbéc, programação nervolingüística, etc. Ela tirou o primeiro lugar no concurso, e superou 214.369 candidatos à vaga.

Colocaram Miriam a trabalhar com Rodolfo, o velho lobo do mar de substâncias simples e compostas que compõem nossa saudável alimentação do dia a dia. Rodolfo conseguia distinguir quase que qualquer meleca só pelo cheiro. Ele chegou cedo ao laboratório, naquela manhã de segunda-feira, dia de receber a nova funcionária que já o aguardava. Após as formalidades e apresentações de praxe, Rodolfo mostrou para Miriam o que realmente interessava: a máquina de café. Encerrado o que interessava, foram ao trabalho. Analisariam um novo modelo de lasanha de brócolos pronta para o consumo. A coisa vinha numa caixa vermelha muito bonita.

- Tem manual de instruções! – surpreendeu-se Rodolfo.

Rodolfo nunca havia visto um alimento com manual de instruções intitulado como tal. Às vezes a fábrica anexava um folhetinho mercadológico, mas nunca um manual.

Miriam tentou mostrar confiança quando disse:

- O mercado está a exigir maior comprometimento com a qualidade.

Rodolfo lhe devolveu um olhar que falava por si só. Primeiro dia, tudo bem. Ela comentou, com a voz um pouco trêmula:

- Na caixa há um alerta em grandes letras amarelas. Avisa para não abrir a caixa antes de ler atentamente o manual de instruções.

- Curioso. Por falar nisso, como se abre essa caixa? Não há abas laterais... – Rodolfo virava a caixa inspecionando-a por todos os lados.

- Aqui está! Na página 29 do manual o texto explica que as aqueles ressaltos no lado direito da caixa devem ser pressionados ao mesmo tempo. Ao ouvir um sibilo suave, desencaixar a tampa para trás e removê-la. Se o sibilo for forte, de forma alguma, nunca mesmo, retire a tampa. Nesse caso chame 0800-cól-naine-uan-uan.

- Humpf... Essa é nova.

- Menina, veja a composição química.

Miriam não sabia se ficava lisonjeada ou ofendida por chamarem-na de menina.

- Na página 97 há uma tabela de especificações técnicas. Eu não pensei que fosse tão completa, pois traz até o ponto de fusão e a meia-vida (?) dos componentes.

- Deve ser alguma nova norma xenofóbica européia. – disse Rodolfo.

Ele abriu a caixa, conforme as instruções, e ia colocá-la no forno de microondas, para descongelamento.

- Pare! – ordenou Miriam, num tom de voz que surpreendeu Rodolfo.

- O que ouve? – Não era comum uma nova funcionária dar um grito desses.

- Na página 2 há um alerta quanto aos riscos de se aquecer o produto à temperatura superior a 150⁰C.

- Como se descongela isso? – Rodolfo parecia intrigado.

- Na página 3 mandam armazená-la em local seco e seguro, observando espaçamento mínimo de 332 mm entre caixas. Estranho, não é?

Colocaram a lasanha em banho-maria, a 40⁰C, e foram à máquina do café. Quando retornaram, a lasanha já estava aparentemente descongelada. Mais do que isso, ela já estava quente.

- Nooossa! Essa é novidade! – Rodolfo havia de reconhecer que o pessoal andava mais criativo.

- A tampa interna abriu-se sozinha. – comentou Miriam. – Na página 18 consta que a tampa interna é feita de zircaloy-4. Mais um daqueles nomes criados pelo marketing!

Rodolfo colocou a lasanha num prato e a posicionou em frente a si para a prova do cheiro. Ele fechou os olhos, trouxe o vapor com a mão em concha, inspirou profundamente e demorou apenas três segundos para sentenciar:

- Que diabo é isso?

- Na caixa dizem que é lasanha de brócolos. – disse Miriam.

- Vamos fazer uma análise do que há aí dentro.

- O manual tem um desenho que descreve a lasanha, camada por camada.

- Ótimo, a primeira é do quê?

- Aqui diz que é um anteparo de proteção.

- Para proteger quem, contra o quê? – Rodolfo tentou cheirar novamente a coisa.

- Na página 19 dizem que é uma camada feita de samário, um moderador que absorve nêutrons... Não dizem se protege a lasanha ou o ambiente...

- Essas coisas verdes, logo a seguir, são os brócolos?

- Hum... página 20... aqui diz que é um revestimento térmico feito com dióxidos de silício e zircônio e com trióxido de alumínio.

- Céus! Inventam cada coisa... O que é aquela camada amarela, no meio da lasanha?

- Está descrito na página... Cá está, na página 22. É o elemento físsil.

- Elemento físsil?! Tem certeza de que isto é uma lasanha de brócolos?

- Bem, o manual, na página 1, descreve isso como sendo uma pastilha de combustível para o submarino nuclear nacional.

- Mas a caixa não diz que é uma lasanha?

- Dizer, diz, mas a fábrica é a mesma, a Nuclemassas. Talvez tenham trocado as embalagens. Colocaram a pastinha de urânio na caixa de lasanha de brócolos. E agora? O que faremos?
- Calma, muita calma! – Rodolfo parecia querer controlar o pânico.

- A quem devemos avisar?

- Calma! O manual não descreve exatamente o que há dentro da caixa?

- Bem, sim.

- Então está em conformidade com a norma técnica. Pode liberá-la, e vamos ao café!

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12.4.08

383 - A vida de Bárion


Oak Ridge (Foto: Wikipedia)
A vida de Bárion

Por Paulo Heuser


Bárion não sabe exatamente onde nasceu. Sabe apenas que viaja sozinho, desde que perdeu seus companheiros. Ele gostava especialmente do pequeno Lépton, que corria alegremente em torno dele. Bárion foi arrancado de uma comunidade que cresceu além do que ela própria poderia suportar, e foi expulso, sem destino certo. Nem o seu fiel companheiro Férmion o protegeu na hora da expulsão. Isso que eles mantinham uma relação realmente íntima.

O solitário Bárion vaga pela pequena eternidade que teve algum início, sem consciência de que sua vida terá um fim, próximo ou distante. É a lei natural das coisas. Antes a situação estava muito mais estável. Essa estabilidade durou mais do que a memória de Bárion poderia recordar. Ele desconfiava de que fora expulso por se manter neutro. Lá não havia mais lugar para quem ficava sobre o muro. O mundo estava em convulsão, e apenas os que tomavam algum partido eram mantidos nas comunidades. Havia forte coesão entre eles. Originado da família Hádron, Bárion tem parentes nada neutros.

O que Bárion não imagina é que ele mudará o curso da história. Logo ele, o solitário viajante errante, ao qual ninguém atribuiu valor. Por vezes é assim mesmo, alguém que aparentemente está apenas de passagem acaba criando uma revolução. Bárion estaria apenas de passagem, em outros tempos. Porém, algum evento dramático colocou outra comunidade no seu caminho. Com todo esse espaço vazio, quiseram o destino e a intervenção humana que o improvável acontecesse. Bárion entra com tudo, no meio daquela comunidade, sem pedir licença nem receber permissão. Não passa despercebido. A comunidade se agita, incomodada pela presença imprevista e indesejada do Bárion. Urânia nunca mais será a mesma, após a chegada dele. Em pouco tempo aquela até então estável comunidade divide-se em duas: Kriptônia e Bária - talvez assim batizada em homenagem ao provocador de toda essa revolução.

Além de dividir Urânia, Bárion consegue arregimentar dois seguidores, também Hádrons, como ele próprio. Expulso novamente, Bárion segue sua trajetória solitária. Assim fazem seus novos seguidores, um em cada direção. Novamente acontece o improvável. Aproximadas pelo evento violento, novas comunidades se põem na trajetória involuntária de Bárion e seus novos seguidores. Cada um divide novas sociedades e arregimenta dois novos seguidores, multiplicando o processo. A divisão das comunidades produz muito calor.

São 8h15m43s do dia 6 de agosto de 1945. Bárion, um nêutron, viaja de um átomo de Urânio 235, fissionado em átomos de Kritônio 92 e Bário 141, Devido à massa crítica obtida pela aproximação de duas cargas de U235, no interior da bomba atômica Little Boy, Bárion encontrará outros átomos pelo caminho, provocando novas fissões, que liberarão outros nêutrons como ele próprio, dando seguimento à reação em cadeia, gerando uma imensa quantidade de calor que pulverizará a cidade japonesa de Hiroshima.

Imitando o mundo das partículas, também há Bárions nas comunidades humanas, como os nêutrons térmicos da fissão nuclear. Chegam nas comunidades, como quem não quer nada. Parecem neutros. Inserem-se no núcleo social das comunidades e desestabilizam-nas, provocando a fissão social. Dividem a comunidade em partidos, mandando afiliados dividirem outras comunidades, numa reação em cadeia que não deixa nada de pé.


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