1.6.08

406 - Uma questão de imputabilidade

Foto: Funai
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Uma questão de imputabilidade


Por Paulo Heuser



Quem é criminalmente imputável, afinal? Todo mundo que goza de perfeita saúde mental, não está sob o efeito de drogas, não é parlamentar, e foi civilizado. Este é o entendimento jurídico reinante. Ou seja, há bem mais inimputáveis do que se imagina. O grande problema é a convivência entre imputáveis e inimputáveis. Eles não devem habitar o mesmo ambiente, sob pena de alguém dar uns talhos no outro alguém, e livrar-se da encrenca. Os inimputáveis deveriam ficar fisicamente separados do resto da população - os imputáveis. Os detentores de cargos eletivos, que gozam de imunidade, ficariam confinados às reservas parlamentares. Os não-civilizados ficariam confinados às reservas indígenas, na companhia de membros de ONGs estrangeiras, representantes das madeireiras, garimpeiros, pesquisadores de laboratórios, guerrilheiros de nações amigas e vendedores de facões abençoados. Os inimputáveis que sofrerem das faculdades mentais, ou estiverem sob a influência de drogas, ficariam confinados ao mundo, às ruas, às praças e as suas casas.

Cabe aos imputáveis a percepção da condição de inimputáveis dos outros. Por isso, todo cuidado é pouco, ao passar por eles. Esta é uma regra de sobrevivência do mundo moderno. As mamães ensinam os filhos a evitarem aqueles sujeitos de aparência exageradamente rústica, que vêm pela rua, babando e sorrindo, com os olhos esbugalhados.

Haram pensa assim. Ele sempre foi favorável à manutenção dos não-civilizados em ambientes isolados. Somente quem compartilha da mesma ética, pode viver em comum. A convivência religiosa dos ditos civilizados não é nada, digamos, civilizada. Assim, fica difícil definir o que é civilização. Haram tem consciência desses problemas éticos, surgidos nos contatos com civilizações primitivas não-civilizadas. Eles não vêem a morte do outro como algo necessariamente ruim, desde que possam comê-los. Faz parte da sua natureza e das suas religiões. Suas relações com o ambiente também são diversas daquelas dos civilizados. Os inimputáveis não têm escrúpulos, em venderem as riquezas naturais das suas reservas aos imputáveis que convivem com eles. Os imputáveis, também não. Mais um motivo para viverem isolados – acredita Haram.

Terom é um otimista. Acredita que os não-civilizados têm apenas boas intenções. Eles deveriam ser ajudados a progredir aos patamares mais altos da civilização. Terom defende os missionários que se aventuram pelas reservas, catequizando e fornecendo a tecnologia mais avançada da civilização mais desenvolvida. Ele acredita na integração social do não-civilizado, através de empurrõezinhos na escala evolutiva. Forneçam-lhes tecnologia e eles saberão o que fazer com ela – este é o seu lema.

Não é de hoje, que Haram e Terom trocam farpas a respeito da conveniência do contato com os inimputáveis não civilizados. A rusga começou em 1938, quando Terom participou de um contato direto com um não-civilizado chamado Otto Hahn. Num gesto de boa vontade, mostrou ao sujeito o que acontecia quando se bombardeavam átomos de urânio com nêutrons térmicos. Deu no que deu. Acabaram construindo uma bomba atômica. Não é para isso que se transfere tecnologia aos primitivos. Haram defende a manutenção dos terráqueos na sua reserva planetária. Eles que façam bom uso dela.

Terom não desiste de tentar civilizá-los. Aparentemente, não aprendeu nada com seu primeiro fracasso. Continuou transferindo tecnologia, e os primitivos criaram o Orkut e o YouTube.

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12.4.08

383 - A vida de Bárion


Oak Ridge (Foto: Wikipedia)
A vida de Bárion

Por Paulo Heuser


Bárion não sabe exatamente onde nasceu. Sabe apenas que viaja sozinho, desde que perdeu seus companheiros. Ele gostava especialmente do pequeno Lépton, que corria alegremente em torno dele. Bárion foi arrancado de uma comunidade que cresceu além do que ela própria poderia suportar, e foi expulso, sem destino certo. Nem o seu fiel companheiro Férmion o protegeu na hora da expulsão. Isso que eles mantinham uma relação realmente íntima.

O solitário Bárion vaga pela pequena eternidade que teve algum início, sem consciência de que sua vida terá um fim, próximo ou distante. É a lei natural das coisas. Antes a situação estava muito mais estável. Essa estabilidade durou mais do que a memória de Bárion poderia recordar. Ele desconfiava de que fora expulso por se manter neutro. Lá não havia mais lugar para quem ficava sobre o muro. O mundo estava em convulsão, e apenas os que tomavam algum partido eram mantidos nas comunidades. Havia forte coesão entre eles. Originado da família Hádron, Bárion tem parentes nada neutros.

O que Bárion não imagina é que ele mudará o curso da história. Logo ele, o solitário viajante errante, ao qual ninguém atribuiu valor. Por vezes é assim mesmo, alguém que aparentemente está apenas de passagem acaba criando uma revolução. Bárion estaria apenas de passagem, em outros tempos. Porém, algum evento dramático colocou outra comunidade no seu caminho. Com todo esse espaço vazio, quiseram o destino e a intervenção humana que o improvável acontecesse. Bárion entra com tudo, no meio daquela comunidade, sem pedir licença nem receber permissão. Não passa despercebido. A comunidade se agita, incomodada pela presença imprevista e indesejada do Bárion. Urânia nunca mais será a mesma, após a chegada dele. Em pouco tempo aquela até então estável comunidade divide-se em duas: Kriptônia e Bária - talvez assim batizada em homenagem ao provocador de toda essa revolução.

Além de dividir Urânia, Bárion consegue arregimentar dois seguidores, também Hádrons, como ele próprio. Expulso novamente, Bárion segue sua trajetória solitária. Assim fazem seus novos seguidores, um em cada direção. Novamente acontece o improvável. Aproximadas pelo evento violento, novas comunidades se põem na trajetória involuntária de Bárion e seus novos seguidores. Cada um divide novas sociedades e arregimenta dois novos seguidores, multiplicando o processo. A divisão das comunidades produz muito calor.

São 8h15m43s do dia 6 de agosto de 1945. Bárion, um nêutron, viaja de um átomo de Urânio 235, fissionado em átomos de Kritônio 92 e Bário 141, Devido à massa crítica obtida pela aproximação de duas cargas de U235, no interior da bomba atômica Little Boy, Bárion encontrará outros átomos pelo caminho, provocando novas fissões, que liberarão outros nêutrons como ele próprio, dando seguimento à reação em cadeia, gerando uma imensa quantidade de calor que pulverizará a cidade japonesa de Hiroshima.

Imitando o mundo das partículas, também há Bárions nas comunidades humanas, como os nêutrons térmicos da fissão nuclear. Chegam nas comunidades, como quem não quer nada. Parecem neutros. Inserem-se no núcleo social das comunidades e desestabilizam-nas, provocando a fissão social. Dividem a comunidade em partidos, mandando afiliados dividirem outras comunidades, numa reação em cadeia que não deixa nada de pé.


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