9.6.09

527 - Delírios da realidade

Teorema de Bruno Giorgi
Foto: Wikipedia
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Delírios da realidade

Paulo Heuser


Outra lá da Praça da Alfândega. Numero Um, primeira mulher do Nestor, teve de sair de baixo do Teorema, obra de arte de Bruno Giorgi. Culpa de quem levou a escultura, desde a João Manuel até a Capitão Montanha. O Teorema ficou sem marquise. Assim, quando chove, ela tem de morar nas escadas do banco. Ela passa o dia falando com alguém supostamente imaginário através de um telefone certamente imaginário, enquanto Nestor exerce sua atividade de mendigo titular da praça. Hoje ela gritava com o aparelho, talvez para compensar alguma queda de qualidade do sinal devida à chuva.

- Eu te falei, mulher! Desci a Pinto Bandeira e rasguei a bacia. O cara disse que a mãe dele joga um bolão lá no poste da Bento Martins. As duas freiras calcularam o prejuízo e alguém terá que pagar. Vou mandar a conta para a faxineira da creche. O bule perdeu o nariz quando os homens subiram pela parede da piscina...

Não dava nem pausa para respirar. Ela conseguia falar expirando e inspirando. O pessoal que anda por lá já está acostumado com os bate-papos da Número Um. Já nem ouvem mais. Porém, para os principiantes, causa espanto. Principalmente pela ótima dicção. Indiferente aos passantes, ela mandava ver:

- A base de sustentação do feijão preto é a mola mestra da hipocondria armênia de grandes altitudes. Os hunos do Mercado Público vendem roçadeiras fabulísticas levadas a cabresto...

Dos passantes, um se deteve por mais tempo. Lembrava o Sr. Pickwick, de Charles Dickens. Ele ficou a ouvir a verborréia da figura rota que se encolhia de frio.

- A hipótese do homem solteiro abriga os dolmens especulativos da hiperventilação tubária. Melhor assim, pois as patas traseiras não sofrerão descargas atmosféricas acessórias. Ipso facto, ficamos acocorados...

O Sr. Pickwick parecia maravilhado, pois tomava notas num pequeno caderno marrom. Número Um, por sua vez, encolhia-se cada vez mais. A chuva dera lugar ao frio, e seu velho abrigo adidas não vencia mais olimpíadas. Ele demorou-se demais, ao lado dela, chamando-lhe a atenção.

- Eu te falei, mulher! Botaram um cara a me espionar. Grampearam meu telefone. Vou ter de falar em código. O que é que você está olhando? Também vai me chamar de louca?

Pickwick falou, pela primeira vez.

- Olhando ao redor, concluo que você é a única certa. Nós é que estamos loucos.

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13.9.08

461 - Sangue! Olha o sangue!


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Sangue! Olha o sangue!

Por Paulo Heuser


A Lei Seca resiste, apesar de todas tentativas para descaracterizá-la. Os benefícios já se fazem presentes, basta que se fale com os profissionais da saúde que trabalham nas emergências hospitalares. Fala-se muito da ausência de fiscalização, que só seria efetuada nos casos envolvendo acidentes ou quando algum motorista apresenta sinais evidentes de embriaguez, como quando dirige em ziguezague. Enquanto juízes discutem a constitucionalidade da lei, torna-se cada vez mais claro que ela é necessária. É uma lei boa para a saúde, ruim para os negócios dos bares e restaurantes. Mesmo o Nestor, expoente máximo da mendicância alfandegária – ele reside e labuta na Praça da Alfândega -, percebeu o dilema.

Nestor lembrou-se das aulas de Economia, dos tempos em que ainda não era um Alfandegário, quando investia pesado na bolsa de telefones. Então o dilema se traduzia na dicotomia da transformação das armas em arados, ou seria dos arames em tarados? Seja como fosse, ele percebeu a nova dicotomia da saúde e da renda dos bares e restaurantes. Não é sempre que o cérebro do Nestor funciona de forma tão normal, digamos assim. Chegaram a levá-lo ao neurologista. O homem de branco lhe explicou sobre o problema surgido nas suas sinapses nervosas. Os neurônios do Nestor passaram a realizar sinapses diferenciadas. Nos seres humanos normais os axônios interagem com os dendritos, separados apenas pela fenda sináptica. Assim transmitem os impulsos nervosos, através dos neurotransmissores. Os neurônios do Nestor apresentam detritos, no lugar dos dendritos, e a fenda sináptica transformou-se em fossa sináptica. Pouco passa por ali. De tudo que o homem de branco falou, sobre uma confusão de agonistas e antagonistas colinérgicos, Nestor só entendeu uma coisa, que repetia à exaustão para sua Mulher Número 1:

- Ãh, ele disse que meu cérebro se parece com geléia de mocotó...

A fossa sináptica impedia a leitura dos restos de jornais jogados pelos canteiros da Praça. Nestor esteve na Itália quando era jovem, e ainda apresentava apenas a fenda sináptica pré-abissal - que nada tem a ver com o pré-sal. Os italianos entendiam de praças para mendigos. Nada de gramados e canteiros, havia apenas lajes e pedras. Na Alfândega, os jornais jogados nos canteiros ficam cheios de barro. Voltando ao jornal, a Mulher Número Dois - a alfabetizada - lia as quase novas do dia para o Nestor, quando surgiu a notícia sobre uma juíza que exigia exame de sangue para a comprovação da embriaguez dos motoristas. Sem sangue, sem cana. Ou melhor, sem xilindró, já que a cana pode estar presente.

Ninguém entendeu quando Nestor passou a oferecer líquidos avermelhados, contidos em duas garrafas pet transparentes.

- Sangue! Olha o sangue! – balbuciava Nestor.

O pessoal que lagarteia por lá estranhou. O Funério trazia um cartaz no peito onde se lia: “Vendo meu voto”. Ele perguntou ao Nestor sobre o estranho líquido vermelho.

- Ãh, é sangue! – respondeu-lhe Nestor – Tem de 5 e tem de 10!

- Cinco e 10 o quê?

- Cinco e 10 reais.

- Vá vender atrás do cemitério, para o pessoal que prepara aqueles trabalhos.

- Ãh, este é para os motoristas usarem, quando a fiscalização pegá-los. Eles já podem levar o sangue para o exame.

- Por que a diferença de preço?

- Ãh, o de 5 é meu, e o de 10 é da Mulher Número 2...

- Por que o dela custa mais?

- Ãh, é que ela não bebe...

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12.8.08

440 - O artista e o povo

Teorema, de Bruno Giorgi. Foto: Paulo Heuser
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O artista e o povo
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Por Paulo Heuser
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“Todo artista tem de ir onde o povo está” - canta o grande Milton Nascimento. Por vezes, não são os artistas, que vão, é a obra deles que vai ao encontro do povo. O escultor Bruno Giorgi (1905-1993), nascido no interior paulista, filho de imigrantes italianos, emigrou para a Itália, em 1911. Acompanhou a família, que para lá retornou. Em Roma, militou no partido comunista, o que lhe rendeu uma extradição, de volta para o Brasil, após amargar quatro anos no xilindró romano. Nos anos 30, foi estudar em Paris, nas prestigiadas academias La Grande Chaumière e Ranson.
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Bruno Giorgi voltou ao Brasil, em 1939, e estabeleceu-se em São Paulo. Ao longo de 40 anos de escultura, Giorgi deixou obras de grande expressão artística, como o Monumento à Juventude Brasileira (1947), que se encontra no Palácio da Cultura do Rio de Janeiro, antigo Ministério da Cultura e Saúde. Os Candangos (1960) enfeita a Praça dos Três Poderes, em Brasília. Outra obra de grande destaque é Integração (1989), que se encontra no Memorial da América Latina, em São Paulo. Bruno Giorgi foi professor do artista plástico austríaco, naturalizado brasileiro, Francisco Stockinger.
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Há uma obra de Giorgi na Praça da Alfândega, o Teorema. Pois o Teorema está cercado pelo povo. Nestor e suas famílias moram atrás do Teorema, durante o dia, pois diariamente perdem a marquise que os abriga durante a noite. Esse crescimento econômico, que tirou a maior parte da população da condição de miseráveis, trouxe a crise imobiliária para a minoria remanescente, na base da pirâmide. Bons mesmo foram aqueles tempos de crise, quando havia prédios para alugar, por toda parte. Sobravam marquises. Hoje, não. Basta o sol nascer para que Nestor e suas famílias sejam despejados pelos esquadrões da mangueira e do esfregão. Não respeitam nem sua mulher número 2, que espera outro filho. Ele nascerá sem marquise fixa.
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Noutro dia perguntaram ao Nestor sobre o número de filhos dele. Ele sempre responde o mesmo: dez. E continuarão sendo dez, após no nascimento daquele que a número 2 carrega no ventre, pois Nestor tem apenas dez dedos nas mãos. É aí que termina o sistema numérico dele. A Mega Sena acumulada paga dez, há dez árvores na praça, a idade do Nestor é dez, e assim por diante.Quase todas as pequenas cidades européias têm monumentos, nas suas praças centrais, aos soldados mortos durante as duas Grandes Guerras. São obeliscos com as listas dos nomes. Essas listas são particularmente grandes nos povoados próximos às fronteiras belga, luxemburguesa e francesa com a Alemanha. Lá ocorreram os combates que deixaram milhões de mortos e estropiados, homenageados através dos célebres monumentos ao soldado desconhecido. Sobre as cenas que lá presenciou, o médico britânico John McCrae escreveu um célebre poema, em 1917:
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“NOS CAMPOS DE FLANDRES
Nos campos de Flandresas papoulas estão florescendo entre as cruzes
que em fileiras e mais fileiras assinalamnosso lugar;
no céu as cotovias voame continuam a cantar heroicamente,
e mal se ouve o seu canto entre os tiros cá embaixo.Somos os mortos...
Ainda há poucos dias, vivos,
ah! nós amávamos, nós éramos amados;
sentíamos a aurora e víamos o poentea rebrilhar,
e agora eis-nos todos deitadosnos campos de Flandres.
Continuai a lutar contra o nosso inimigo;
nossa mão vacilante atira-vos o archote:
mantende-o no alto.
Que, se a nossa fé trairdes,
nós, que morremos, não poderemos dormir,
ainda mesmo que floresçam as papoulas
nos campos de Flandres.”
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Na Praça da Alfândega há apenas monumentos em homenagem àqueles que conquistaram as mais altas patentes. Nestor nunca lerá Nos campos de Flandres, até porque é analfabeto. Tampouco sonha onde fica Flandres, apesar de sonhar com uma telha de folha de flandres, para construir um puxadinho no Teorema. Talvez agora perguntem: o que tem uma coisa a ver com a outra? Bem, provavelmente Bruno Giorgi nunca esperou chegar tão próximo do povo, a ponto de morarem na sua obra. Tampouco esperava criar uma espécie de monumento em homenagem ao estropiado desconhecido, pracinha da miséria. Sem papoulas a florescer, resta algo de poesia ao Nestor. Talvez ele possa declamar Nos campos da Alfândega:
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“...ah! nós amávamos, nós éramos amados;
sentíamos a aurora e víamos o poentea rebrilhar,
e agora eis-nos todos deitados...”
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Disso, Nestor entende. Passa metade do dia deitado, e, pela facilidade que ele apresenta, para amar e ser amado, talvez aquele seja o monumento ao pai desconhecido.
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16.7.08

426 - O despertar

Foto: Wikipedia
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O despertar
Por Paulo Heuser


Talvez seja apenas outra dessas lendas urbanas que contam histórias fantásticas e inverossímeis a respeito de mendigos. Esta conta a história do Nestor, atual personagem número 1 da Praça da Alfândega. Ele sucedeu o antológico Penúltimo Caudilho, que foi varrer os quartéis da Rua da Praia. A praça andou meio sem dono. Foi-se também aquela senhora volumosa que agenciava as moças faceiras. Foi-se também a inocência dos jogos de damas, nos tabuleiros da Capitão Montanha. Deram lugar ao informal Cassino Alfândega, ironicamente vizinho do grande cassino do Governo. No horário de lagartear, após o almoço, Peru Louco e Tio Funério reinavam absolutos. Porém, faltava alguém que tomasse conta da praça em tempo integral. Um residente, portanto.

Nestor foi se chegando, durante o ocaso do Penúltimo, faz uns três anos. Começou com o característico me-dá-me-dá. Desfia uma interminável súplica, digna de derrotar uma equipe de beatas disputando uma novena olímpica. Ele é um sujeito moreno e calvo, que reparte as atenções das suas duas mulheres, uma jovem, outra mais castigada pela vida na rua. Com o tempo, Nestor ficou. Morar nessa praça, apresenta vantagens. O povo que circula por lá é mais abonado, pertence à classe média média. São os melhores para dar esmolas. Sempre sobra um pouco, ao contrário do que acontece com os pobres, e o coração deles é um pouco mais mole do que o dos ricos. Especialmente o das mulheres que vestem taieur claro. Azul claro é o melhor. São as vítimas preferidas para o achaque do Nestor. Ele gruda ao lado delas, que tentam se equilibrar sobre os sapatos de salto alto, enfiados nas frestas daquele infame calçamento da praça. Dão qualquer coisa, para se livrarem dele. Assim ele toca a vida, provendo casa e comida para as suas famílias. A casa varia de lugar, conforme sopra o vento.

Agora, vamos à lenda. Ela reza que o Nestor foi um empresário de sucesso, que sofreu grave acidente, em 1985. Ele havia angariado tal capital, que já se permitia viver de rendas, sem necessariamente tricotar. Nestor estava de malas prontas para viver em Bombinhas, Santa Catarina. Praia pequena, calma, com natureza exuberante, muito diferente da badalação que destruía o paraíso da Ilha de Santa Catarina. Nestor havia investido pesado no mercado de telecomunicações. Ele comprou mais de cem linhas telefônicas, algumas por quatro mil dólares, para viver da renda do aluguel. Homem calejado, no ramo dos negócios, ele investiu outro tanto na compra de uma rede de locadoras de fitas de videocassete. O homem estaria garantido, até o fim dos seus dias.

Então, veio o acidente, e Nestor ficou em coma durante os 20 anos seguintes. O maior azar dele foi acordar, finalmente. Havia perdido a mulher, que juntou os trapos com alguém que não passava os dias e as noites dormindo. Foi assim, do nada, que Nestor se viu acordado. Da centena de linhas telefônicas, sobraram as contas pendentes. A rede de locadoras quebrou antes da virada do milênio. Os antigos amigos fugiram dele. Nestor foi previdente, e guardou um milhão de dólares. Numa conta em um banco argentino. Da ex-mulher só ouviu uma frase:

- Eu vou enchê-lo de formigas, num canteiro de urtigas! – gritava ela, enquanto lhe dava guarda-chuvadas a rodo.

Só e desiludido, Nestor se mandou para a sua nostálgica Bombinhas. Viveria feito hippie, na beira da praia. Voltou, a pé. E na praça, conquistou novos amores.


prheuser@gmail.com

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17.5.08

399 - Esmolcard

Foto: Paulo Heuser
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Esmolcard

Por Paulo Heuser


O Nestor pode ser mendigo, louco, incômodo e piolhento, porém não é burro. Como ele mora ao relento na Wall Street dos pampas, sabe dar seus pitacos, quando o assunto é dinheiro. Ele observou o pessoal pagando o engraxate de cadeira da praça, usando o cartão de débito. O engraxate tem uma daquelas máquinas paga pagamento com cartão, sem fio. Coisa de primeiro mundo. No Primeiro Mundo já conseguiram mandar todos os empregos ao Quarto Mundo, através da automação de todos os pequenos serviços. Dos assentos de vasos sanitários autolimpantes da Alemanha, aos hotéis de auto-serviço da França, tudo é automático. O Nestor viajou muito, antes de enlouquecer e optar pela vida franciscana na praça, com suas duas novas mulheres.

As esmolas vêm caindo, dia a dia. Caem em outro lugar, não na mão do Nestor. Ele percebeu o fenômeno, ainda mais depois que assumiu a segunda esposa. E ele conhece os culpados: os governos municipal e federal. O primeiro colocou os parquímetros, exigindo que o pessoal tenha moedas no bolso, o segundo substituiu as cédulas de baixo valor pelas moedas, colocando estas em circulação. Assim, quem tem moedas no bolso pensa duas vezes, antes de dá-las a um mendigo. Foram duros golpes na mendicância. As revoluções tecnológicas extinguem profissões, como as de digitador, caixa e mendigo. Nestor já andava pensando em alguma coisa, há algum tempo. Considerou até um investimento num parquímetro falso, de uso próprio. Colocaria o equipamento junto ao meio-fio, pela manhã, e contaria a féria após o expediente, ao retirá-lo.

Foi o pagamento do engraxate que lhe deu a luz à idéia do Nestor. Ora, um esmoleiro de talento, como ele, fatura mais do que o engraxate, além de não suportar custos fixos. Não compra graxa, jornal, nem qualquer outro insumo para exercer sua milenar profissão. Basta-lhe a cara de louco miserável que o destino lhe deu de graça. Quanto pior estiver vestido, melhor. O resto a comiseração faz. Se o engraxate pode ter uma máquina daquelas, por que não ele? O problema tem sido a aparência rústica, digamos, do Nestor. Conhecido como Senhor dos Piolhos, ele não conseguiu acesso a quem vende o serviço dessas maravilhosas caixas ambulantes sem fio. É uma pena, pois poderia lançar o produto Esmolcard, cartão múltiplo, de débito e descrédito. O cartão de débito é aquela coisa que todo mundo conhece. O cartão de descrédito, no entanto, é algo revolucionário. O portador do Esmolcard pode dar esmola parcelada, em até doze vezes, deixando de ser abordado pelo mendigo durante um ano. O mendigo receberá a esmola em parcelas mensais, o que lhe dará mais tranqüilidade quanto ao futuro.

Boas idéias não ficam escondidas. O flanelinha da esquina – aquele que faz rodízio de carros na área tarifada – gostou da idéia. Está cansado do pessoal que diz não ter troco na sexta-feira, prometendo dar algum no dia seguinte. Com o sábado e o domingo vem a amnésia. Na segunda, de nada se lembram. O Flanelcard está caindo de maduro. Nestor já está sendo cotado para a presidência do Sindesmola, agremiação de classe dos mendigos.

Nesta nossa sociedade tão marcada pela flexibilidade institucional, o governo copiou a idéia do Nestor. Porém, não deu muito certo. Criaram um cartão, mas pensam em substituí-lo, dando um salário mínimo ao portador. Por dia. Quanta miséria, dirão.


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