29.9.08

470 - Brócolos com o quê?


Foto: Wikipedia
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Brócolos com o quê?

Por Paulo Heuser


Miriam conseguiu esse emprego na agência que avalia a conformidade dos alimentos com as normas técnicas aplicáveis. Pudera, estudou feito uma louca - Engenharia de Alimentos, MBA em marketing e todos aqueles cursos de extensão em desinibição oral, biofidbéc, programação nervolingüística, etc. Ela tirou o primeiro lugar no concurso, e superou 214.369 candidatos à vaga.

Colocaram Miriam a trabalhar com Rodolfo, o velho lobo do mar de substâncias simples e compostas que compõem nossa saudável alimentação do dia a dia. Rodolfo conseguia distinguir quase que qualquer meleca só pelo cheiro. Ele chegou cedo ao laboratório, naquela manhã de segunda-feira, dia de receber a nova funcionária que já o aguardava. Após as formalidades e apresentações de praxe, Rodolfo mostrou para Miriam o que realmente interessava: a máquina de café. Encerrado o que interessava, foram ao trabalho. Analisariam um novo modelo de lasanha de brócolos pronta para o consumo. A coisa vinha numa caixa vermelha muito bonita.

- Tem manual de instruções! – surpreendeu-se Rodolfo.

Rodolfo nunca havia visto um alimento com manual de instruções intitulado como tal. Às vezes a fábrica anexava um folhetinho mercadológico, mas nunca um manual.

Miriam tentou mostrar confiança quando disse:

- O mercado está a exigir maior comprometimento com a qualidade.

Rodolfo lhe devolveu um olhar que falava por si só. Primeiro dia, tudo bem. Ela comentou, com a voz um pouco trêmula:

- Na caixa há um alerta em grandes letras amarelas. Avisa para não abrir a caixa antes de ler atentamente o manual de instruções.

- Curioso. Por falar nisso, como se abre essa caixa? Não há abas laterais... – Rodolfo virava a caixa inspecionando-a por todos os lados.

- Aqui está! Na página 29 do manual o texto explica que as aqueles ressaltos no lado direito da caixa devem ser pressionados ao mesmo tempo. Ao ouvir um sibilo suave, desencaixar a tampa para trás e removê-la. Se o sibilo for forte, de forma alguma, nunca mesmo, retire a tampa. Nesse caso chame 0800-cól-naine-uan-uan.

- Humpf... Essa é nova.

- Menina, veja a composição química.

Miriam não sabia se ficava lisonjeada ou ofendida por chamarem-na de menina.

- Na página 97 há uma tabela de especificações técnicas. Eu não pensei que fosse tão completa, pois traz até o ponto de fusão e a meia-vida (?) dos componentes.

- Deve ser alguma nova norma xenofóbica européia. – disse Rodolfo.

Ele abriu a caixa, conforme as instruções, e ia colocá-la no forno de microondas, para descongelamento.

- Pare! – ordenou Miriam, num tom de voz que surpreendeu Rodolfo.

- O que ouve? – Não era comum uma nova funcionária dar um grito desses.

- Na página 2 há um alerta quanto aos riscos de se aquecer o produto à temperatura superior a 150⁰C.

- Como se descongela isso? – Rodolfo parecia intrigado.

- Na página 3 mandam armazená-la em local seco e seguro, observando espaçamento mínimo de 332 mm entre caixas. Estranho, não é?

Colocaram a lasanha em banho-maria, a 40⁰C, e foram à máquina do café. Quando retornaram, a lasanha já estava aparentemente descongelada. Mais do que isso, ela já estava quente.

- Nooossa! Essa é novidade! – Rodolfo havia de reconhecer que o pessoal andava mais criativo.

- A tampa interna abriu-se sozinha. – comentou Miriam. – Na página 18 consta que a tampa interna é feita de zircaloy-4. Mais um daqueles nomes criados pelo marketing!

Rodolfo colocou a lasanha num prato e a posicionou em frente a si para a prova do cheiro. Ele fechou os olhos, trouxe o vapor com a mão em concha, inspirou profundamente e demorou apenas três segundos para sentenciar:

- Que diabo é isso?

- Na caixa dizem que é lasanha de brócolos. – disse Miriam.

- Vamos fazer uma análise do que há aí dentro.

- O manual tem um desenho que descreve a lasanha, camada por camada.

- Ótimo, a primeira é do quê?

- Aqui diz que é um anteparo de proteção.

- Para proteger quem, contra o quê? – Rodolfo tentou cheirar novamente a coisa.

- Na página 19 dizem que é uma camada feita de samário, um moderador que absorve nêutrons... Não dizem se protege a lasanha ou o ambiente...

- Essas coisas verdes, logo a seguir, são os brócolos?

- Hum... página 20... aqui diz que é um revestimento térmico feito com dióxidos de silício e zircônio e com trióxido de alumínio.

- Céus! Inventam cada coisa... O que é aquela camada amarela, no meio da lasanha?

- Está descrito na página... Cá está, na página 22. É o elemento físsil.

- Elemento físsil?! Tem certeza de que isto é uma lasanha de brócolos?

- Bem, o manual, na página 1, descreve isso como sendo uma pastilha de combustível para o submarino nuclear nacional.

- Mas a caixa não diz que é uma lasanha?

- Dizer, diz, mas a fábrica é a mesma, a Nuclemassas. Talvez tenham trocado as embalagens. Colocaram a pastinha de urânio na caixa de lasanha de brócolos. E agora? O que faremos?
- Calma, muita calma! – Rodolfo parecia querer controlar o pânico.

- A quem devemos avisar?

- Calma! O manual não descreve exatamente o que há dentro da caixa?

- Bem, sim.

- Então está em conformidade com a norma técnica. Pode liberá-la, e vamos ao café!

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28.9.08

469 - O fim do cientista louco

Foto: Wikipedia
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O fim do cientista louco

Por Paulo Heuser


Toda escola que se prezava tinha pelo menos um cientista louco. Toda escola onde havia laboratório, bem entendido. Os cientistas loucos não eram propriamente cientistas, eram protótipos excêntricos deles. Por que os chamavam de loucos? Porque faziam coisas que fugiam à compreensão dos não-cientistas loucos, ou seja, era loucos mesmo. Não que exercessem necessariamente a sua loucura nos laboratórios dos colégios, mas era lá que a sua loucura despertava. Os cheiros das substâncias químicas – fedores para os demais -, as caixas dotadas de lâmpadas, fios, medidores e chaves atraíam os cientistas loucos como um aifone atrai um geek – maníaco por tecnologia - atual. Um cientista louco se diferenciava de um geek pela paixão, um por ciência, outro pela tecnologia. O cientista louco precisava saber como as coisas funcionavam, razão pela qual desmontavam tudo que havia em casa, e também fora dela. Os geeks não desmontam coisas, eles exercitam o uso das coisas acabadas, e recebem manuais de instruções.

O geek mais famoso é Bill Gates, sem dúvida. O título de cientista louco mais importante talvez deva ser dado a Michael Faraday (1791-1867), considerado o maior físico e químico experimental de todos os tempos. De origem humilde e autodidata, Faraday apaixonou-se pela ciência ao trabalhar numa livraria, aos 13 anos de idade. Ele destacou-se sobremaneira no Eletromagnetismo e na Eletroquímica. Seus trabalhos deram suporte aos de Edison, Siemens, Testa e Westinghouse, entre outros. Outro cientista louco de renome foi Wernher Von Braun, o grande fogueteiro alemão, responsável pela criação das bombas voadoras V2 e por boa parte do programa espacial norte-americano.

Convivi com alguns cientistas loucos, como o Bruno, que explodiu o porão da loja de conserto de geladeiras do pai; o Doca, que transformou a sala de estar do vizinho - Seu Lux - em uma espécie de campo de pouso de naves espaciais feitas com canos galvanizados cheios de pólvora; o Kuno, perito em ondas de rádio e o Felipe, fogueteiro por excelência.

Talvez aí resida a profunda diferença entre os cientistas loucos e os atuais geeks. Os primeiros exultavam ao lançar coisas aos céus, da forma mais ruidosa possível. Coisas que, infelizmente, voltavam a Terra. Coisas de balística. Sabe como é, coisas que sobem enquanto perdem a energia cinética e ganham a potencial, enquanto as coisas que descem ganham energia cinética e perdem a energia potencial. Os geeks exultam ao transformar um bit de pé em bit deitado. Correm pela rua, gritando em silêncio, que têm o poder de deitar um bit. Tudo no mais absoluto silêncio.

O Seu Lux pode não ter saudades deles, mas os cientistas loucos fazem falta. Hoje somente o granizo fura telhados.

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25.9.08

468 - A classe média XIV - O dia em que o mundo deveria ter acabado



Fonte: Wikipedia
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A classe média XIV – O dia em que o mundo deveria ter acabado

Por Paulo Heuser


Padre Antão tentava descobrir o que seriam as hóstias diet mencionadas na carta recebida da Capital. Tampouco entendera o que seriam as hóstias sabor pizza mencionadas na correspondência anterior. Quem entendia de hóstias era a beata Dona Clotilde. Era da casa dela que saíam as ditas cujas. O padre jogou a carta no arquivo, junto com as anteriores que ofereciam vinho de missa sem álcool. Se o Jota lá de cima quisesse que o vinho não tivesse álcool, teriam servido suco de uva aos treze à mesa. A liturgia da Paróquia do Município do Lado de Cá do Cinamomo, último bastião da classe média não-estatística, não agregava modernidades dessa espécie. Noutro dia chegara uma carta oferecendo um purificador de água benta. Se for benta, por que purificá-la?

O crescido terneiro mugiu, talvez de purificação, talvez de fermentação.

Às 11 horas o padre dirigiu-se ao Bar, Restaurante e Borracharia 12 Irmãos, onde o Estranho era esperado. Traria comunicado urgente do MINES – Ministério da Especulação. Pontual feito relógio quebrado, o jipe do MINES adentrou a vila, espalhando barro para todos os lados. A bordo, além do Estranho, dois homens de terno e gravata. Eles entraram no 12 Irmãos e foram recebidos pelo Sétimo, o Prefeito, os 10 irmãos sobreviventes - secretários e vereadores -, pelo Padre Antão e pelo Linoberto, atual Secretário Especial Para Assuntos Estranhos. O Sétimo serviu da “boa”, para todos os presentes. Cortesia da casa, insistiu ele.

- O que os traz para o Lado de Cá do Cinamomo? – perguntou Linoberto.

- Em primeiro lugar, eu gostaria de lhes apresentar o Mr. Alan Shitspan, representante do governo norte-americano, e o Sr. Macro Econômio, Ministro da Especulação do Governo. Vamos diretamente ao assunto que nos trouxe até aqui. Como vocês já devem ter visto, houve um movimento atípico por parte dos agentes financeiros norte-americanos, que apontam para uma não-realização do retorno dos dividendos das ações. – respondeu-lhe o Estranho.

O representante do MINES tomou a palavra:

- Estamos aqui para tranqüilizá-los. Viemos pessoalmente porque não foi possível contatar qualquer agente intermediário do mercado. Não há corretoras de valores mobiliários por aqui?
- Não, não há, pois o pessoal não aplica em ações. – disse Linoberto.

- Não é possível, nem em fundos de ações? – os engravatados estavam perplexos.

- Não, não há nem banco por aqui.
- (?) – Os visitantes pareciam não acreditar.

- Mas, mas, como vocês pagam suas contas? Onde depositam o dinheiro? – até o Estranho olhava estranhamente, enquanto o crescido terneiro mugia, talvez de captação, talvez de liquidação.

- O rapaz do leite movimenta as contas da Prefeitura, lá na cidade, e aqui, não há contas. Pagamos em dinheiro ou mercadorias. – Linoberto divertia-se com o olhar de espanto deles.

- Vocês trocam commodities (mercadorias)? – Mr. Shitspan formulava as perguntas traduzidas pelo Econômio.

- Sim, aqui chamamos isso de escambo.

- Bem, de qualquer forma, estamos aqui para tranqüilizá-los em nome do Governo e do governo norte-americano. O Governo garante que não seremos atingidos pela crise! – continuou Econômio.

- Então por que estão aqui? – perguntou-lhe marotamente Linoberto.

- Para garantir, em caso de um impossível reflexo local do cenário norte-americano, que nada atingirá nossa economia. Nós garantimos. - Econômio começou a transpirar.

- Repito, nada poderá nos atingir, pois essa crise ficará circunscrita ao mercado global, no qual não estamos inseridos, de forma nenhuma!

O Sétimo interveio:

- Ah, o rapaz do leite também nasceu com aquele negócio meio apertado, então fizeram a tal de circunscrita nele. – ele mostrou que estava por dentro do assunto.

Nem o Estranho nem o Econômio conseguiram traduzir isso para o Mr. Shitspan.

- Vocês não participam de nenhum pregão? – Econômio insistia.

O Sétimo já se sentia mais à vontade para opinar. Era sempre assim, ele começava meio tímido e depois ia liberando o verbo, agregando muito à conversa.

- A gente guarda alguns no almoxarifado, para quando alguém precisa pregar o telhado. Senão, o rapaz do leite compra na cidade e traz.

Mr. Shitspan já estava impaciente, pois a tradução simultânea falhava.

- Não posso acreditar que vocês não investem em SAs, pois todo mundo faz isso! – Econômio já aparentava indignação.

- Ésse o quê? – perguntou o cada vez mais à vontade Sétimo.

- SA - Sociedade Anônima! – o homem de terno estava próximo de perder a paciência.

- Ah, não, nós até tínhamos a SCELCC – Sociedade Cultural Esportiva do Lado de Cá do Cinamomo -, mas não foi adiante, pois o pessoal não se interessou. – o Sétimo fora presidente da SCELDCC.

O Estranho havia distribuído em guia para investimento seguro na bolsa de valores. O Sétimo colocou os óculos e leu em voz alta e arrastada:

- Valor venal. Venal. – ele parecia ponderar a expressão, quando lhe ocorreu algo, pois levantou as sobrancelhas, enquanto exclamava:

- Ah, foi aquela pereba que o rapaz do leite pegou no dia em que dormiu na cidade. Foi uma doença venal, coisa muito feia de se ver. O bicho pingava e ele gemia.

O crescido terneiro mugiu, talvez de aplicação, talvez de indexação.

Mr. Shitspan exigiu explicações dos seus anfitriões, pois nada entendia, e precisava retornar aos EUA para fazer o relatório ao Barrac O’Brama. Não as obteve antes de o Sétimo ler outra coisa no livrinho da bolsa.

- Underwriting, como é que se pronuncia isso? – ele ouviu a resposta e arriscou umas três vezes, antes de tentar novamente:

- Anderrráitin... Esse é o barulho que a moça da margarina fazia quando lançava pela janela, enjoada que estava. Parece que ela teve gêmeos.

Ao meio-dia interromperam a reunião para o almoço de negócios. Arroz, feijão, carne de panela e salada. Mr. Shitspan perguntava o que era aquilo, que ele nunca havia comido.

- É comida. – respondeu-lhe o Estranho.

Linoberto encontrou Maria ao lado da paróquia. Ela o esperou com aquele sorriso que fazia a vida valer a pena. O Sol já varria a meia-tarde e dava brilho especial aos cabelos dela, que balançavam ao vento.

- E ai, Lino, qual foi o assunto de hoje?

- O Estranho trouxe mais dois estranhos, um era do Governo, outro do governo dos EUA. Eles vieram falar da crise que destruiu a economia deles.

- O que eles queriam?

- O estranho do Governo queria nos tranqüilizar. Disse que a crise de lá não chegara até aqui.

- Você acha que chegará?

- Alguma coisa deve chegar. Talvez comprem menos leite, mas no geral, não devemos sofrer muito, desde que não façamos negócios com o outro lado do cinamomo. Eles têm um jeito estranho de fazer negócios. É uma espécie de loteria em que compram e vendem papéis que nada valem. Depois, choram como crianças quando descobrem que os papéis não valem nada.

- Gente esquisita, não é, Lino?

- É, Maria, temos que manter o cinamomo de pé, assim eles não contaminam nossa economia.

- O que o norte-americano veio fazer aqui?

- Não sei, mas pelo que sei de inglês, o homem queria voltar logo à Capital para telefonar ao tal de Barrac O’Brama, para avisá-lo de que encontrou um novo modelo econômico que resolverá todos os problemas deles.

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24.9.08

467 - Um novo modelo mercadológico-eleitoral


Verona. Foto: Paulo Heuser
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Um novo modelo mercadológico-eleitoral

Por Paulo Heuser


As empresas arrendadoras de bens costumam registrar a parte imutável dos contratos de arrendamento mercantil (leasing) nos cartórios de notas. Essa prática permite a confecção de contratos bastante enxutos, pois o que é invariável apenas é referenciado na parte específica de cada negócio. Lembrei-me disso ao assistir ao programa eleitoral obrigatório.

Todos os candidatos a vereador repetem as mesmas coisas. Todos se posicionam contra a corrupção e a favor da segurança, da saúde e da educação. O problema é que lhes falta tempo após a ladainha imutável. Um partido nanico já adotou o jogral como forma de difundir suas idéias exclusivas. Cada candidato diz uma palavra. Lembra um pouco os jograis da Dona Camila, no jardim de infância. Só que no lugar dos versos há apenas uma palavra para cada candidato. Porém, ainda assim falta-lhes tempo, pois quando eles terminam a frase padrão, o tempo acabou.

A relação entre eleito e eleitor não deixa de ser um contrato, mesmo que celebrado de forma tão secreta. O termo “compra de votos” não está muito correto, pois o prazo é fixo: quatro anos. Mais correto seria chamá-lo de arrendamento mercantil do voto, pois há cláusula que permite renová-lo por mais períodos de quatro anos. Juntando nada com coisa nenhuma se poderia criar um novo modelo de propaganda eleitoral obrigatória, com evidentes vantagens mercadológico-eleitorais. Pactuadas e registradas as cláusulas pétreas da eterna ladainha, os candidatos poderiam exercer toda sua criatividade. Aqueles preciosos segundos poderiam servir para divulgar as propostas que diferenciariam aquele candidato de todos os outros.

Da Itália vêm belos exemplos da criatividade legislativa municipal. Proibiram o uso de tamancos na paradisíaca ilha de Capri. Nem pense em fazer castelos de areia nas praias de Eraclea. Dá multa. O pessoal deu asas às leis em Verona. Os flanelinhas veroneses são multados e perdem a féria. Os clientes das prostitutas da terra dos Montecchi e Capuleti levam pesadas multas. A sorte do Romeu de Shakespeare é que aquela Julieta era moça de família. A tragédia contemporânea será protagonizada pelo flanelinha descamisado Romeu que namora a prostituta Julieta que come sandubas junto aos monumentos históricos de Verona. Sim, comer junto aos monumentos e andar sem camisa em Verona também é proibido. Num recente episódio, os pais de um menino de quatro anos foram multados porque ele comia um sanduíche em área considerada histórica. Esse episódio gerou um comentário interessante por parte de um cidadão veronês: “boh, multare un bambino perché mangia un panino mi pare un’emerita cagata degna di un minorato mentale.. ma se la legge è cosi.. allora il minorato mentale non è solo chi la applica ma anche chi l’há fatta.” – “não sei, multar um menino porque come um sanduíche parece uma, digamos assim, mancada digna de um retardado mental.. mas se a lei é assim.. então o retardado mental não é apenas quem a aplica mas também quem a fez.”

Ao leste da Itália, na Romênia, há um mendigo de Bucareste que já acumula mais de um milhão de dólares em multas. Ele é multado diariamente por mendicância e perturbação da ordem. Será que ele hoje pede esmolas para tentar pagar as multas de ontem?

Fico a sonhar com as propostas que poderiam surgir no horário eleitoral obrigatório, se os candidatos não fossem obrigados a repetir aquela seqüência enfadonha de corrupção, educação, saúde e segurança. Poderiam propor a limitação do nível de ruído gerado pelos pernilongos, ou, quem sabe, um horário limitado para o canto dos sabiás.


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23.9.08

466 - A classe média XIII - Pão com banha

Pão com banha. Fonte: Wikipedia
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A classe média XIII – Pão com banha

Por Paulo Heuser


A primavera chegou ao desconhecido Município do Lado de Cá do Cinamomo. O crescido terneiro mugia, talvez de abobalhação, talvez de assombração. O telefone de baquelita do Bar, Churrascaria e Borracharia 12 Irmãos tocou, e acordou o Sétimo, que dormia em pé atrás do balcão. Ele atendeu e conseguiu entender, em meio aos chiados, que o Estranho estaria chegando ao Lado de Cá do Cinamomo, último reduto da classe média não-estatística. O Governo estaria tentando falar com o Prefeito há dois dias, mas foram impedidos pelos problemas de comunicação provocados pelos galhos do cinamomo batendo nos fios.

O jipe do MIMA – Ministério da Margarina – chiou os freios em frente ao 12 Irmãos, antes de o Sétimo dizer o até logo que soou meio carioca, pelo chiado dominante na linha. O estranho veio acompanhado pelo agente especial sanitário Patterson e pela agente sanitária sênior Halley-Bop. Os agentes vestiam roupas especiais que exibiam o símbolo universal que indica perigo biológico. O Sétimo acionou a alavanca do SMA – Sistema Municipal de Alarme –, que puxou a corda amarrada ao badalo do sino da igreja. Padre Antão dormia no confessionário, enquanto ouvia a confissão do dia da Dona Clotilde. Ela confessava dirigir sem uso do cinto de segurança, pois o Dauphine 1962 não estava equipado com esse item de segurança. Tampouco com qualquer outro. Padre Antão lhe prescreveu a reza de sempre e correu para o 12 Irmãos.

O padre chegou a tempo de ver os agentes Patterson e Halley-Bop medirem alguma coisa com instrumentos que emitiam bipes cadenciados. Ela apontava o instrumento para o balcão atrás do qual o Sétimo acordou e gritou:

- Resultado positivo, às doze horas!

- Mas, são recém 10h35... – observou o Sétimo.

O agente Patterson também apontava seu medidor para o balcão, no momento em que Linoberto entrou no 12 Irmãos, alertado pelo badalar do sino.

Linoberto cumprimentou rapidamente o Estranho e perguntou:

- O que lhe traz desta vez? Uma nova lei besta?

- Não, Linoberto. O MIMA recebeu uma denúncia de uso de manteiga. Esta foi banida das prateleiras dos mercados do lado de lá do cinamomo por ter sido considerada insalubre pelos fabricantes de margarina e derivados.

- Insalubre para os negócios deles, bem entendido. – disse Linoberto.

- Não é apenas uma questão comercial, há também o problema do biodiesel e do pré-sal! – afirmou o Estranho.

- Alguém come biodiesel? – perguntou o Sétimo.

- Não diretamente, mas para fabricarem manteiga reduzem a área plantada de soja e prejudicam a produção estratégica do biodiesel. Menos vacas, mais óleo, é o lema.

O crescido terneiro mugiu, talvez de compreensão, talvez de constipação.

- E o pré-sal, o que tem a ver com isso?

- Ora, é óbvio, sabe como é, a relação entre o pré-sal e a margarina de biodiesel está intrinsecamente ligada à questão da exploração futura do óleo extraído da camada pré-sal que financiará a exploração do biodiesel como... como... como aquilo.

Todos permaneceram em silêncio durante alguns instantes.

- Fabricarão margarina com sal? – perguntou o Sétimo.

- Com sal, sem sal, aditivada ou não, fabricaremos qualquer tipo de margarina. O MIMA está encarregado da eliminação da manteiga. Poremos fim às gorduras saturadas!

A agente Halley-Bop apontou seu instrumento investigador na direção do copo da “boa” que o Sétimo serviu.

- Nós não temos margarina no Lado de Cá do Cinamomo. Só usamos manteiga. – disse o Sétimo.
A agente Halley-Bop sentiu uma súbita náusea, e saiu em disparada na direção da janela dos fundos do 12 Irmãos, bem ao lado do chiqueiro. Se ainda estava em dúvida quanto a não-digestão do café da manhã, esta se dissipou de pronto.

- Mas, nós gostamos da manteiga! A tal de margarina não tem gosto, ou melhor, tem gosto de margarina! – disse o Sétimo.

- A margarina é o produto preferido da população mundial, desde sua invenção pelo químico francês Hippolyte Mège-Mouriés, a pedido de Napoleão III! - O Estranho estava ficado entusiasmado com o próprio conhecimento do assunto.

- Ela foi fabricada a partir de gordura animal porque a manteiga era muito cara! – protestou Linoberto – E mais, somente muito depois é que fizeram a margarina com óleos vegetais, inclusive com essas gorduras trans tão combatidas.

- Só falta vocês também quererem comer banha! - disse o Estranho.

A agente sênior Halley-Bop não resistiu e correu novamente para a janela.

- Não há nada melhor do que pão com banha fresca! – o Sétimo abriu um largo sorriso.

A agente sênior Halley-Bop não resistiu e permaneceu junto à janela. Ela não conseguia imaginar que tipo de pessoa comeria manteiga e banha de porco, e a náusea se fez presente.

- Seja como for, vocês terão de abdicar da produção dessas gorduras polissaturadas. Elas são insalubres e antipatrióticas, pois vão de encontro às políticas do biodiesel e do pré-sal.

Maria estava cozinhando marmelada, quando Linoberto chegou em casa.

- E então, Lino, como foi a encrenca?

- O pessoal do lado de lá do cinamomo só inventa bobagens. Agora resolveram que temos de plantar soja e comer a tal de margarina, aquela pasta sem gosto que eles fabricam. Dizem que não podemos mais fabricar manteiga.

- Teremos de comer aquela pasta horrível? – Maria sentiu um calafrio.

- Tivemos de fazer um acordo.

- Qual?

- Bem, prometemos não fabricar mais manteiga.

- E o que comeremos sobre o pão, além da banha?

- Ora, bateremos a nata do leite até que ela fique dura.

- Isso não é manteiga?

- Não, Maria, - Linoberto deu uma piscadela – é nata muito batida.

- Lino, o padre me disse que a tal da agente vomitava o tempo todo.

- É, Maria, creio que serão gêmeos.

O crescido terneiro mugiu, talvez de gestação, talvez de marcação.


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20.9.08

465 - Foi no 20 de setembro



Carga da cavalaria Farroupilha. Guilherme Litran
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Foi no 20 de setembro

Por Paulo Heuser

Triiim...

- Alô!

- Bom dia! Eu estaria falando com quem?

- Boa pergunta...

- Seria o Senhor Paulo?

- Quem poderia saber... Vou perguntar ao vizinho... Um momento, por favor. - (pausa) – Alô, sim, o vizinho disse que é ele.

- O Senhor Paulo seria o vizinho?

- Não, ele disse que é o contrário.

- Como eu faria para falar com o Senhor Paulo?

- Já está falando com ele...

- Oh, desculpe, houve um mal entendido.

- Não entendi!

- Bem, o senhor é o Senhor Paulo, é verdade?

- É o que o vizinho diz, e eu acredito piamente nele, pois é candidato a presidente do conselho do condomínio.

- Percebo, Senhor Paulo. Eu poderia falar um minuto com o senhor?

- Bem, já estamos falando há mais do que isso...

- Certo, Senhor Paulo, serei direta, então. O Senhor é cliente do nosso cartão Monocard, não é?

- Se vocês que são donos do cartão não sabem, eu saberei?

- Certo, nós sabemos.

- Que bom! Podemos nos despedir satisfeitos, pois chegamos à unanimidade.

- Senhor Paulo, eu gostaria de lhe falar das vantagens de ser um cliente Monocard.

- Infelizmente, hoje não será possível!

- Entendo, senhor, mas eu não poderia falar-lhe por um minuto?

- Para dizer a verdade, não. Não estou aberto, nem aos domingos, nem aos feriados.

- Mas, Senhor Paulo, hoje é sábado...

- Pode até ser, mas não é um sábado como outro qualquer, hoje é 20 de setembro!

- Certo, senhor. A data confere.

- Então, até logo...

- O que há de especial no 20 de setembro? Para nós, todo dia é dia para se usar o Monocard!

- Ora, o 20 de setembro é o dia em que todos mergulham na fumaceira e andam a cavalo.

- Por quê?

- Porque nesse dia, faz muitos anos, um vendedor de serviços de cartão de crédito ligou, na manhã de um sábado, para um cliente esfarrapo.

- Percebo, Senhor Paulo, mas o senhor já conhece as vantagens de ser um cliente Monocard?

Então se iniciou uma sangrenta guerra que durou mais de dez longos anos.



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19.9.08

464 - O tesouro toscano


Foto: Paulo Heuser
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O tesouro toscano

Por Paulo Heuser


Para se conhecer uma terra, deve-se saboreá-la. Antes que alguém coma um punhado dela, esclareço: coma dos pratos típicos da região. A Toscana é uma região que merece ser conhecida não apenas pelas artes, mas também pela mesa. E haja mesa! Entre paisagens bucólicas, duomos, museus e torres retas ou tortas, a culinária toscana sobressai-se, e traz de arrasto os vinhos chianti e montalcini.

Uma das lembranças que tenho da infância é a do meu pai vindo à Capital. Ele dava uma passada no finado Armazém Riograndense, loja de especiarias que ficava na Otávio Rocha. Naqueles tempos pré-supermercado, os mercados vendiam arroz, feijão e batatas, tudo na tulha. Qualquer coisa diferente vinha do Armazém Riograndense. Acompanhei meu pai numa dessas incursões, quando ele comprou um vidro de champignons. Eu passei toda viagem de volta imaginando o sabor daquelas pequenas coisinhas levemente amareladas. Em casa, veio a prova. Foi ato solene. E foi uma das maiores decepções da minha vida. Achei pavoroso o gosto daquelas coisas. Com o tempo, pude provar os cogumelos Paris frescos que surgiram por aqui no final dos anos 70. E gostei. O que antes era estranho, passou a ser lugar comum. O consumo de cogumelos no Brasil é de 30g per capita ao ano. Na Itália ultrapassa 1,3 kg e na Alemanha alcança 4 kg ao ano por pessoa.

Um dos pratos típicos da toscana é o fungo (cogumelo) porcino – Boletus edulis -, considerado o Rei dos Cogumelos. Na França, onde também é apreciadíssimo, chama-se cèpe de Bordeaux. O porcino acompanha principalmente as massas e risotos, mas pode também ser encontrado nos molhos de carnes. Os italianos têm a felicidade de encontrá-los frescos, principalmente em outubro. Nós encontramos esses cogumelos apenas na forma desidratada, os funghi secchi porcini. Esses cogumelos apresentam aroma e sabor característicos, levemente adocicados. São completamente diferentes dos funghi secchi chilenos, de aparência escura e gosto mais amargo. Infelizmente, não se diferenciam somente em aroma e sabor, diferenciam-se muito também no preço. Esta é a má notícia. A boa, é que com 50g de funghi já se pode fazer um bom prato para seis pessoas, devido aos intensos aroma e sabor apresentados pelo cogumelo italiano.

Noite dessas tirei meu tesouro toscano do armário da cozinha. Foi trazido por alguém que cruzou o Mar Tirreno, o Oceano Atlântico e aquele brejo que fica atrás do Salgado Filho. Preparei apenas dois pratos, bavette al pesto genovese e penne ai funghi. Na Itália, seriam due primi piatti – dois primeiros pratos -, pois seriam seguidos pelos segundos pratos, à base de carne ou de frutos do mar. O interessante é observar que o primo não é o primeiro, pois antes servem os antipastti - entradas. Como o segundo prato, que é na verdade o terceiro, não é o último, depois dele servem os contorni – geralmente saladas -, e, ufa!, dessert – sobremesa. E lá se vão três ou quatro horas à mesa da mamma ou da nonna. Então é quase hora do jantar. Entende-se porque nada funciona na Itália aos domingos. Nem nos outros dias da semana, por sinal. Porém, me limitei a dois primi piatti. Servi primeiro o penne ai funghi secchi porcini, temeroso de que o manjericão do pesto matasse o sabor delicado do prato seguinte.

Cometi um pecado que me levaria à fogueira dos hereges, na opinião da nonna. Só que a nonna recebe a pensão dela em Euros. Eu, não. Com um número maior de convivas, estendi os funghi secchi porcini através de um recurso herege, porém válido. Acrescentei duas bandejas de cogumelos ostra (Pleurotus ostreatus), encontráveis em qualquer supermercado, a preços acessíveis. São cogumelos frescos, também conhecidos como shimeji branco. Eles apresentam aroma e sabor muito suaves, não competindo com os porcini. Porém, dão volume ao molho. Ninguém se queixou do resultado. Se interessar, segue a receita, só não deixem a nonna saber:

Ingredientes:

Massa de grano duro penne, ou outra da preferência;
50g de funghi secchi porcini;
2 bandejas de cogumelos ostra (shimeji branco) frescos;
1 cebola pequena;
2 dentes de alho;
Manteiga;
Azeite puro de oliva;
Salsinha;
Sal;
Pimenta do reino;
Creme de leite fresco (nata).


Modo de preparo:
Deixar os funghi secchi porcini de molho em água morna suficiente para encobri-los, para reidratá-los, por 30 minutos. Nesse ponto, o aroma já encherá o ambiente. Findo esse período, retirá-los da água e espremê-los com a mão, de modo que o excesso de líquido escorra no recipiente onde estiveram de molho. Pelo amor de Deus! Não jogue fora aquela água! Aquele é o pipi dos deuses! Esse líquido milagroso pode ter variados destinos, se coado através de um pano para retirar eventuais resquícios de terra trazidos pelos funghi. Eu optei, naquela noite, por preparar um creme de cogumelos, que servi como primo di tutti primi – primeiro dos primeiros. O sabor é incrível, ainda mais quando se pinga um pouco de azeite de oliva lá dentro.

Voltando à massa, picar bem a cebola e refogá-la na manteiga com um fio de azeite. Quando ela estiver no ponto de dourar, acrescentar o alho picado e pimenta do reino moída. Cuidado para não deixar o alho queimar. Em seguida, acrescentar os cogumelos, tanto os porcini como os shimeji, e deixar refogar por 3 minutos. Salgar a gosto. Se ficar muito seco, acrescentar um pouco da água onde os cogumelos foram reidratados (o pipi dos deuses). Acrescentar uma ou duas colheres de sopa do creme de leite fresco, conforme desejar um molho mais ou menos aveludado. O creme de leito fresco não talha ao ferver. Pronto. Acrescentar a massa cozida al dente, espalhar um pouco de salsinha e parmesão, ou grana, sobre o prato. A seguir, feche os olhos e vá comer numa mesa ao ar livre do Da Gherardo, na Via dell’Anfiteatro, em Lucca, na Toscana. Não estranhe se houver um chinês sentado ao lado. É o shimeji.



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16.9.08

463 - Novas patologias


Foto: IBM 3033, da década de 80. Cortesia da IBM
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Novas patologias

Por Paulo Heuser


Os profissionais de TI – Tecnologia da Informação - que ingressaram na área na década de 70, como eu, surgiram durante o período jurássico do então Processamento de Dados. O pessoal mais novo brinca, nos chamando de dinossauros, pois estaríamos extintos, sem sabê-lo. Há professores de cursos de TI que falam dos mainframes – computadores de grande porte – como coisas do passado. Contam que, no histórico evento do Mainframe de Babel, as CPUs se rebelaram e correram em todas as direções, cada uma falando uma linguagem diferente, como Assembler, Fortran, Cobol, Algol, PL/I, C++, Pascal, Java e tantas outras. Na verdade, os mainframes ainda existem, e sou testemunha viva disso. Eles apenas estão escondidos em subsolos ou salas cofre, bem longe do público em geral. Assim também estão os mainframers – os profissionais que trabalham com as grandes máquinas.

É fácil reconhecer um mainframer, apesar da escassez deles. Eles têm cabelos brancos, cabelos tingidos ou não têm cabelo algum. Geralmente se comportam de forma estranha, e falam palavras mais estranhas ainda. Eles não imprimem o conteúdo de telas ou arquivos, eles listam. Os mainframes chamam relatório de listagem, HD de disco e operam mouses do tamanho de capivaras. Estive num dos últimos eventos apenas para mainframers. Aquele sim era o lugar perfeito para venderem tinturas de cabelos e cera de carnaúba. Parecia um congresso de internos de geriatria. Havia aparelhos auditivos e andadores grátis. Sem mencionar o rabecão de plantão.

O aspecto triste de ser um mainframer é trabalhar com computadores que não têm jogos. Nada, nem um miserável FreeCell ou Pack Man. Mahjong e Solitaire? Nem sonhar! Paciência, por mais ambíguo que possa parecer, não é apenas um jogo de microcomputador. É uma característica da personalidade dos mainframers, que devem tolerar piadas a respeito da sua extinção, partindo dos laptopers - povo que lida com os computadores das novas eras.

Não são apenas os mainframers que exibem sinais exteriores da sua profissão, como os cabelos brancos, tingidos, caídos ou qualquer combinação disto.

O Dr. Prljave Bradu, do Centro de Pesquisas Avançadas em Anatomia Humana da Universidade da Ístria, sediada em Hum, na Croácia, publicou artigo na Znanstveni časopis – jornal da Academia Croata de Ciências -, sobre alterações anatômicas observadas em laptopers de meia-idade. Esses profissionais apresentaram alterações posturais importantes. Adotaram postura diferenciada, com o corpo projetado para frente. Contudo, a alteração mais importante diz respeito à modificação anatômica dos membros superiores. Os laptopers passaram a andar com as mãos dependuradas na frente do corpo, com os antebraços recolhidos. As duas mãos estão sempre paralelas, uma próxima da outra. A equipe do Dr. Bradu observou um grupo de 827 laptopers, que foram comparados com os 12 mainframers encontrados, pertencentes ao grupo de controle. O trabalho concluiu que as alterações anatômicas observadas nos laptopers decorrem da utilização de notebooks cada vez menores. Como não enxergam muita coisa, naquelas telas minúsculas, projetam o corpo na direção da tela. Os minúsculos teclados obrigam a digitação com as mãos muito próximas, uma da outra, em paralelo, com os antebraços recolhidos na frente do corpo.

A Dra. Ručnik Stained, do Instituto de Zoologia da Universidade da Ístria, em Hum, diz que, os laptopers estão adquirindo postura semelhante àquela do Tiranossauro Rex, graças aos minúsculos notebooks de sete polegadas.

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15.9.08

462 - O pior dos tormentos

Foto: Wikipedia

O pior dos tormentos

Por Paulo Heuser


Dizem por aí que um lugar para experimentar os piores tormentos imagináveis é a prisão de Guantánamo. Pode ser, mas não é o único. Há locais onde um homem pode sofrer muito, pelo menos no aspecto psicológico. São as lojas de roupas femininas.

Para começo de conversa, dificilmente um homem entra numa loja de roupas femininas para comprar alguma coisa. Ele entra para acompanhar as mulheres em compras. Então surge a diferença comportamental entre os dois sexos originais, aqueles do tempo de Adão e Eva. Nos casais de Adão e Ivo, não sei como os Ivos se comportam nas compras, mas presumo que se assemelham às mulheres.

Quando um homem entra numa loja de roupas para comprar uma camisa branca – eles sempre entram tendo em mente o que querem comprar -, pede uma camisa branca, e especifica o tipo de camisa e o número. Se a camisa tem etiqueta de marca conhecida, o homem pula a fase do provador, pergunta o preço, paga e vai embora. Isso leva por volta de 10 minutos, incluído aí o tempo necessário para se convencer o vendedor de que não queremos comprar calças, sapatos, meias, pijamas, gravatas e outros itens. Queremos uma camisa branca, e não queremos fazer o cartão da loja.

Quando uma mulher entra numa loja para comprar uma blusa branca, ela vai aos shoppings, pois as lojas fora deles não apresentam o mesmo tumulto. A mulher pára em todas as lojas que há antes da loja de roupas, pois sempre há algo interessante na vitrine. Lojas de roupas femininas não têm balconistas, já que não há mais balcões. Há apenas araras e cestos, de modo que as clientes possam se servir à vontade. O espaço entre as araras delimita o caminho que a loja deseja que a cliente faça. Esta pára a cada arara, remexendo em meio às dezenas de roupas. Os provadores estão localizados no fundo da loja, de modo que as clientes só conseguem chegar lá após passarem, senão por todas, pela maioria das araras. Os caixas são ilhas cercadas por expositores de acessórios por todos os lados. Já que ficarão na fila, por que não escolhem um relógio de pulso, ou óculos de sol, enquanto esperam?

Vem a fase do arrependimento, quando elas percebem que escolheram roupas ou acessórios que não combinam entre si ou com qualquer outra coisa que têm em casa. Deixam as mercadorias e saem da loja. Isso não toma mais do que duas horas e meia, incluídos aí os 25 minutos para encontrarem vaga nos estacionamento. Na saída vêem que a loja de sapatos está com ofertas imperdíveis. Por que o único número que está em falta é sempre o delas? Por que não há aquele modelo da fivela sem a fivela? Paciência, pois há outras lojas antes da saída para o estacionamento, e o shopping só fecha às 22 horas.

Quem faz o leiaute das lojas de roupas femininas não deixa espaço para os homens. Não há onde se possa ficar parado, em meio àquele caos, sem atrapalhar as mulheres que andam de arara em arara. Quando elas somem no provador, aí mesmo que aquilo vira um tormento. Demoram, demoram e demoram. Enquanto isso, os homens tentam se distrair, de alguma forma. Qual forma? Vale tudo, desde o joguinho do celular até José Saramago. Tampouco há lugar onde se possa sentar. Loja esperta colocaria um pub com sinuca e telão para os homens esperarem pelas mulheres em compras. Quereriam voltar sempre.

Faltou algo. A mulher que foi comprar a blusa branca percebe, quando chega ao estacionamento, que se esqueceu de comprar a blusa branca.

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13.9.08

461 - Sangue! Olha o sangue!


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Sangue! Olha o sangue!

Por Paulo Heuser


A Lei Seca resiste, apesar de todas tentativas para descaracterizá-la. Os benefícios já se fazem presentes, basta que se fale com os profissionais da saúde que trabalham nas emergências hospitalares. Fala-se muito da ausência de fiscalização, que só seria efetuada nos casos envolvendo acidentes ou quando algum motorista apresenta sinais evidentes de embriaguez, como quando dirige em ziguezague. Enquanto juízes discutem a constitucionalidade da lei, torna-se cada vez mais claro que ela é necessária. É uma lei boa para a saúde, ruim para os negócios dos bares e restaurantes. Mesmo o Nestor, expoente máximo da mendicância alfandegária – ele reside e labuta na Praça da Alfândega -, percebeu o dilema.

Nestor lembrou-se das aulas de Economia, dos tempos em que ainda não era um Alfandegário, quando investia pesado na bolsa de telefones. Então o dilema se traduzia na dicotomia da transformação das armas em arados, ou seria dos arames em tarados? Seja como fosse, ele percebeu a nova dicotomia da saúde e da renda dos bares e restaurantes. Não é sempre que o cérebro do Nestor funciona de forma tão normal, digamos assim. Chegaram a levá-lo ao neurologista. O homem de branco lhe explicou sobre o problema surgido nas suas sinapses nervosas. Os neurônios do Nestor passaram a realizar sinapses diferenciadas. Nos seres humanos normais os axônios interagem com os dendritos, separados apenas pela fenda sináptica. Assim transmitem os impulsos nervosos, através dos neurotransmissores. Os neurônios do Nestor apresentam detritos, no lugar dos dendritos, e a fenda sináptica transformou-se em fossa sináptica. Pouco passa por ali. De tudo que o homem de branco falou, sobre uma confusão de agonistas e antagonistas colinérgicos, Nestor só entendeu uma coisa, que repetia à exaustão para sua Mulher Número 1:

- Ãh, ele disse que meu cérebro se parece com geléia de mocotó...

A fossa sináptica impedia a leitura dos restos de jornais jogados pelos canteiros da Praça. Nestor esteve na Itália quando era jovem, e ainda apresentava apenas a fenda sináptica pré-abissal - que nada tem a ver com o pré-sal. Os italianos entendiam de praças para mendigos. Nada de gramados e canteiros, havia apenas lajes e pedras. Na Alfândega, os jornais jogados nos canteiros ficam cheios de barro. Voltando ao jornal, a Mulher Número Dois - a alfabetizada - lia as quase novas do dia para o Nestor, quando surgiu a notícia sobre uma juíza que exigia exame de sangue para a comprovação da embriaguez dos motoristas. Sem sangue, sem cana. Ou melhor, sem xilindró, já que a cana pode estar presente.

Ninguém entendeu quando Nestor passou a oferecer líquidos avermelhados, contidos em duas garrafas pet transparentes.

- Sangue! Olha o sangue! – balbuciava Nestor.

O pessoal que lagarteia por lá estranhou. O Funério trazia um cartaz no peito onde se lia: “Vendo meu voto”. Ele perguntou ao Nestor sobre o estranho líquido vermelho.

- Ãh, é sangue! – respondeu-lhe Nestor – Tem de 5 e tem de 10!

- Cinco e 10 o quê?

- Cinco e 10 reais.

- Vá vender atrás do cemitério, para o pessoal que prepara aqueles trabalhos.

- Ãh, este é para os motoristas usarem, quando a fiscalização pegá-los. Eles já podem levar o sangue para o exame.

- Por que a diferença de preço?

- Ãh, o de 5 é meu, e o de 10 é da Mulher Número 2...

- Por que o dela custa mais?

- Ãh, é que ela não bebe...

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12.9.08

460 - Os invisíveis

Foto: Wikipedia
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Os invisíveis

Por Paulo Heuser


Eu jogava conversa fora com alguns colegas, após o almoço que não faço, como sempre faço. Uma da tarde, dia nublado e lá veio uma daquelas figuras que colorem o Centro cinza da cidade. Não era pessoa que voltaria. Percebe-se logo quando eles não são da Praça. Vem de algum lugar incerto e longínquo, e partem para outro. Esse parecia fugido da Bolívia, pelas feições marcadamente andinas. Um andarilho miserável, carregando todas suas posses num saco surrado. Nos pés, apenas sandálias havaianas fabricadas no Brasil, apesar da temperatura fortemente declinante. No alto da cabeça, coberta pelos cabelos descuidados, ele usava uma espécie de bandana encardida, em curioso petit-pois branco e preto. Sei que é sinônimo de má educação encarar a bandana dos outros, mas, olhando melhor, aquilo se parecia com uma gravata usada na testa.

Já havia passado um vendedor de santinhos. Preparei-me para o pior, pois o refugiado andino entrava na nossa roda, observando quem estava à esquerda e à direita, sem mover a cabeça, graças a uma estranha independência móvel ocular. Ou seja, os olhos dele não funcionavam aos pares. Era cada um por si, nenhum por todos. O medo aumentou quando a língua dele se esgueirou em meio aos zagueiros laterais ausentes. Aquele era um retrato complicado da imprevisibilidade. Dalí poderia sair qualquer coisa.

O diferente gera o inevitável preconceito. Algo lá no fundo manda acautelar-se frente a esses tipos muito exóticos. Pressenti o bote, provavelmente em espanhol, ou talvez nas línguas aimará ou quíchua, muito faladas nos Andes. Nem sempre um “não” é bem recebido pelos pedintes estrangeiros que visitam nosso país entre o Sete e os 20 de Setembro. Fora deste período, também não. Já estamos habituados com os índios apaches bolivianos que tocam tambores na Rua da Praia, acompanhados pela harpa paraguaia, e com os peruanos que tocam flautas acompanhando as melodias melosas de Kenny G. Porém, esse da bandana era novo. Ele nada tocava, aparentemente.

Do nada, apesar dos nossos olhares desconfiados, ele abriu um grande sorriso que permitiu à língua perscrutar os flancos, enquanto os olhos autônomos varriam as redondezas sem sincronismo aparente, nem horizontal, nem vertical. Então ele disse, em bom português:
- Vocês por acaso não seriam vereadores de Sapucaia?

- Não! – respondemos, quase em uníssono, ainda não refeitos da surpresa.

- Ah, eu percebi, pois posso vê-los!

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11.9.08

459 - Mais sobre buracos negros


Diagrama: Wikipedia
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Mais sobre buracos negros

Por Paulo Heuser


Poucos sabem para o que serve o LHC – Grande Colisor de Hádrons -, e os que sabem, não sabem explicá-lo. Assim, o que for dito, cola. Esse é um dos aspectos interessantes da Física de Partículas. Os objetos dos estudos estão na escala nanoscópica, mas os efeitos da interação entre essas partículas podem ser percebidos amplamente na escala macroscópica. Vide o exemplo da bomba atômica, quando partículas são separadas e liberam enorme quantidade de energia. Outro exemplo macro vem do Sol, onde núcleos de átomos são fundidos.

Ontem assisti àquelas entrevistas de populares passantes. O sujeito vinha tranqüilo pela rua, pensando em pagar o carnê de qualquer coisa, quando surgiu a repórter de microfone na mão, escudada pelo câmera. A pergunta pegaria qualquer um no contrapé: você sabe o que é o Big Bang? A primeira vítima, uma dona de casa, respondeu à pergunta afirmando que era do lar, e apenas lhe diziam respeito as coisas do lar. O segundo entrevistado preferiu seguir a linha dos conflitos bélicos. Sabia que o Big Bang era uma guerra em alguma parte do mundo. Imagino que mais entrevistas levariam aos resultados mais inesperados.

Não sei onde anda o pessoal da publicidade. O que fazem os grandes patrocinadores, que ainda não ofereceram os hádrons que deram a primeira volta no anel do LHC? Estarão dormindo nos louros da vitória dos Jogos Olímpicos? Hádrons campeões chegam próximos à velocidade da luz porque vestem maiôs e sapatilhas das grifes corretas. Quanta receita potencial perdida!

Quando os publicitários acordarem deste hiato interolímpico, talvez enxerguem o potencial da coisa toda. Imagine só um sabão em pó contendo hádrons! Tudo bem que ninguém sabe o que são hádrons, mas quem lá sabe o que é lipolase? Trocam-se alhos por bugalhos, mas o que importa é que uma mensagem foi passada. O que dizer, então, do iogurte com hádrons ativos? E das pastilhas de menta com nanoburacos negros? Afinal, o que é um buraco negro? São perguntas que não têm resposta fácil, mas têm enorme potencial mercadológico. Pizza de brócolos com catupiri e borda de hádrons - receita para o sucesso. Os hádrons poderão ser subdivididos nos bárions e mésons, e estes nos píons e káons, todos com acento, proparoxítonas ou não. Aqui, pois em Portugal serão bariões, mesões, piões e kaões. O céu deixa de ser o limite, que agora está no nanomundo, inclusive nos xampus anticaspa com píons sedosos. Hádrons podem ser átomos de hidrogênio que perderam seu único, e até então fiel, elétron. Alguém dirá que o que sobra é apenas um íon miserável de hidrogênio, ou um próton. O menor átomo, e ainda assim capenga.

O aproveitamento publicitário da Física de Partículas não é novo, basta se dar uma olhada nas propagandas do período pós-Segunda Guerra Mundial. Tudo o que era bom era atômico e radioativo.

É na política que a Física de Partículas pode contribuir muito. Não tardará o discurso: “Os hádrons são nossos!”. O LHC utiliza um enorme acelerador de partículas. Não sei se ele carece de mãe, mas temos a Mãe do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento. Acelerador de partículas e acelerador do crescimento, ambos são fontes de hipotéticos buracos negros que sugam todo dinheiro ao seu redor. Brincar de Deus custa caro.

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9.9.08

458 - Jean-Marc cavou um poço


Fonte: CERN
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Jean-Marc cavou um poço


Por Paulo Heuser


Não é apenas paranóia. É claro que há alguma paranóia por trás disso, mas não se trata apenas dela. O alarme mesmo veio após a entrevista com um renomado cientista que assegurou que o LHC – Grande Colisor de Hádrons – é inofensivo. A parte da entrevista que mais me assustou é aquela onde ele afirma que nada seria pior do que não acontecer nada. Ou seja, algo deverá acontecer. Esperam encontrar o tal do Bóson de Higgs, também conhecido como Partícula de Deus, apesar de completamente desconhecido. Porém, segundo o Dr. Bigbang, melhor criarem um buraco negro do que nada. Criando nada, como poderão justificar os zilhões de euros dos contribuintes gastos no projeto? Criando um buraco negro, nada terão de justificar, pois não haverá para quem.

Outra coisa que me preocupou naquela entrevista foi o tique nervoso do Dr. Bigbang. O canto direito da boca dele contraía-se espasmodicamente a cada vez que falava a palavra hádron. As 28 referências aos hádrons vieram acompanhadas pelos 28 espasmos bucais hipertróficos unilaterais. Cada espasmo bucal acarretou aparentes contrações dos músculos do pé esquerdo, o que poderia indicar espasmos bucopedais hipertróficos bilaterais. Coisa feia de se ver. Entre um espasmo e outro, o homem de jaleco branco falava da improbabilidade da ocorrência de algo errado, pelos simples fato de que ninguém até hoje ouviu falar de qualquer acidente com um equipamento como aquele. Se ouviu, não está mais aqui para dizê-lo. De qualquer forma, não lhe falta currículo. Ele completou sete pós-doutorados, em física de partículas, cursos onde se aprende que múons são vacas puntiformes elementares.

Pena que o Dr. Bigbang não seja um vidente. Se fosse, talvez visse o poço que o Jean-Marc está cavando no pequeno sítio agrícola localizado nas vizinhanças de Meyrin, Cantão de Genebra, Suíça. Jean-Marc até ouviu falar do túnel de 27 km que seus conterrâneos e os franceses cavaram, há muitos anos, que passa sob a pequena cidade. O poço de Jean-Marc já avançou muito. No ritmo em que a broca vai, espera encontrar água no dia 21 de outubro, a uns 100 metros de profundidade. Como todo suíço, Jean-Marc é metódico, e montou uma detalhada planilha de acompanhamento da escavação do seu poço.

Dr. Bigbang, por outro lado, está preocupado apenas com o cronograma de ativação do LHC. Estão resfriando o equipamento até a temperatura de apenas 2 Kelvin – 271ºC abaixo de zero, para iniciarem a circulação de um feixe de partículas, a partir de 10 de setembro de 2008. O renomado físico de partículas ri dos temores da população leiga e de meia-dúzia de colegas que acreditam que algo poderá sair muito errado. Ele tem absoluta convicção de que somente uma conjunção extremamente improvável de fatores poderá levar a um acidente cataclísmico. A probabilidade disso é completamente desprezível, algo em torno de um em 50 milhões.

Para que o experimento de 21 de outubro redunde em um evento fora de controle, será necessário, por exemplo, que uma broca penetre no túnel do acelerador no exato momento em que ocorrerá a colisão dos hádrons apropriados. A última vez que isso ocorreu foi há aproximadamente 13 bilhões de anos.

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8.9.08

457 - 2391-0010



Fonte: Wikipedia
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2391-0010

Por Paulo Heuser


Ah, como esperei por esta manhã de sábado! Ansiava por uma hora a mais de sono, que fosse. Apenas uma hora a mais. O maldito resfriado veio forte, e com esse clima nada melhor do que curtir a cama. Nestes dias a cama se parece com o paraíso, principalmente quando a chuva bate na janela. Então o maldito telefone tocou. Quem ligaria a essa hora da manhã? Seriam más notícias ou engano. Ninguém me acordaria a essa hora se não tivesse um assunto muito importante a tratar. Era uma máquina.

Uma máquina me ligou! Já sou obrigado a falar com máquinas quando utilizo os serviços dos maravilhosos SACs, Call Centers ou seja lá que nomes lhes dão. Porém, desde que o Lula ligou, na eleição anterior, nenhuma outra máquina me ligou. Desta vez não foi o Presidente pedindo votos. Foi a 2391-0010. A máquina de voz feminina não queria comprar votos. Ela queria me vender novas amizades pelo preço de uma ligação local. Acordei, a contragosto.

O Lula eu ainda posso xingar, ligando para alguma ouvidoria. Posso alegar que nunca ninguém antes neste País me ligou tão cedo para pedir voto. Mas, contra uma máquina anônima, o que posso fazer? Ela não tem nome nem endereço. Tenho o número do telefone dela – 2391-0010 -, o que em nada me ajudaria, pois seu eu ligasse para ela, cairia na armadilha. É exatamente o que ela queria que eu fizesse. Faria novos amigos, seu eu ligasse? Amigos baratos, sem dúvida, pois custam o mesmo que custa uma ligação local. Novos amigos em promoção, portanto.

Já que eu estava acordado, resolvi tentar encontrar o dono da máquina. Foi então que descobri que o Tio Google não estava nem aí. Culpa do meu acesso Internet que apresentava forte soluço, fazendo eco a minha tosse. De nada adiantou segurar a tosse, pois o soluço continuava. Fazer o quê! Disquei para o SAC do provedor e segui o menu apresentado pela... pela... máquina! Outra máquina, esta muito simpática.

- Disque 1 para problema de sinal da Internet... Disque 2 para problema com o sinal da TV... Disque 3 para problema com o telefone... (esta é curiosa, discar como?)... Disque 4 para problema com mais de um dos anteriores... Disque 5 para problema com todos os anteriores... Disque 6 se você é deficiente auditivo... Disque 7 se você esqueceu o que eu falei antes... Disque 8 para ouvir musiquinha... Disque 9 para falar com alguém, após ouvir a musiquinha, é claro.

Teclei 1 e descobri que outra máquina me atenderia. Essa bem mais informal que a anterior, pois veio falando direto na íntima demais segunda pessoa do singular. Íntima demais para uma máquina. Foi também uma máquina esperta, pois captou logo o problema. Ela intercalou alguns “entendo” no diálogo (?). A coisa terminou por aí. As ligações foram interrompidas pelo tu-tu-tu-tu. Fiquei sem atendimento, mas não fiquei sem Internet. Tenho uma vizinha muito prestativa. Ela empresta xícaras de açúcar, farinha, ovos e sinal de Internet sem fio.

Vida moderna é assim, não sei o nome dela, apenas o sobrenome. Algo como dlink.

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4.9.08

456 - De Semântica e gramemas



Foto: Wikipedia
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De semântica e gramemas

Por Paulo Heuser


Há palavras belas, palavras neutras e palavras feias na língua portuguesa. Semântica é uma palavra bela, poderosa, como a maioria das proparoxítonas. Com ela, enche-se a boca. Semântica. Assim também é a palavra heurística. Gramema é uma palavra feia, Tem o sabor da paçoca com maria-mole e pamonha. Falta-lhe tudo. Gamema lembra boca mole. Gramemas são os processos de intensificação prefixais, como os prefixos gregos hiper, super e ultra. Apondo-se um gramema à palavra semântica, poderemos obter uma expressão ainda mais poderosa, como a ultra-semântica, que nunca será ultrapassada, pois já está além do limite. Isto posto, tentarei explicar o que aconteceu com o Zé.

O Zezinho queria assistir ao filme que o coleguinha de aula lhe emprestara. O menino sempre elogiava a sala de projeção do vizinho, equipada com TV de alta definição (HDTV). O Zé tinha apenas um televisor SDTV, inferior ao do vizinho. Ninguém deles entendia bem o que significavam essas siglas, mas o que importava mesmo era a competição. Nenhum dos vizinhos poderia se mixar para o outro. Se o vizinho tinha HDTV, o Zé havia de tê-la também. E lá se foi ele, a procurar o melhor sistema de TV de alta definição disponível no mercado, e fora dele.

Quando o caminhão da entrega trouxe o sistema HDTV do Zé, o vizinho contra-atacou, comprando o recém-lançado Full HD, que, sendo lá o que fosse, seria melhor do que o sistema HDTV. O Zé ficou roxo de raiva, e pôs-se a campo, em contato com um personal high tec noiser – consultor pessoal em barulho de alta tecnologia. Este lhe informou do iminente lançamento do sistema ArquiFull HD. Enquanto isso, o menino aguardava. O vizinho não se deu por vencido. Tão logo chegou o ArquiFull HD do Zé, ele anunciou, através do menino, que encomendara um ExtraFull HD, superior ao ArquiFull HD. Enquanto isso, o menino aguardava.

A guerra tecnológica seguiu pelos próximos meses, com a compra de sistemas HiperFull HD, SobreFull HD, SupraFull DH, SuperFull DH, culminando com o UltraFull DH. Ambos esperaram alguma inovação que ultrapassasse o UltraFull HD. Enquanto isso, o menino aguardava. Como o sistema de imagem não mudava, passaram a competir pelo som da TV. Por fim, falidos e exaustos, contentaram-se com o sistema UltraFull HD, com tela de 108 polegadas, equipado com UltraDolby Ultra-Surround 97.1. Guerra era guerra, paz era paz. Finalizada aquela, Zé convidou a família do vizinho para assistirem ao filme que gerou todo o conflito tecnológico, num gesto de paz.

Foi numa noite de sábado. O sistema UltraFull HD veio acompanhado com a máquina UlfraFull HD Popcorn, que produzia pacotes de 5 kg de pipocas na manteiga com bacon em segundos. Com a platéia toda instalada, o menino pôs o disco Ultrablu-Ray, no aparelho UltraFull HD player, e a fantástica tela de 108 polegadas passou a exibir The second hundred years (1927), filme de Oliver e Stanley (Gordo e o Magro). Não há gramema que auxilie a descrever a cara da platéia, quando iniciou o filme em preto e branco, cheio de manchas e riscos. O som UltraDolby Ultra-Surround 97.1 deu um toque especial ao filme mudo.

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2.9.08

455 - Quando a ciência salva a religião



Fonte: Wikipedia

Quando a ciência salva a religião

Por Paulo Heuser


Ciência e religião não trilham caminhos exatamente paralelos. Há a velha briga entre criacionistas e evolucionistas, que lembra a briga entre capitalismo e o comunismo, com suas variantes. Contrariando a Natureza, que sempre procura o equilíbrio, essas doutrinas têm seguidores fanáticos, que nunca chegarão a um acordo.

Recebi um e-mail que parece ter sido escrito por um adepto inconteste da ciência. Esta leva vantagem, em um aspecto insofismável. A metodologia científica evolui desde os tempos da Grécia clássica, com o nascimento da dialética, como precursora da lógica. Galileu, Bacon e Descartes tiveram papéis fundamentais na evolução do pensamento científico que escolhe teorias conforme sua comprovação experimental. Ou seja, não basta imaginá-lo, tem de prová-lo. A estatística aplicada aos métodos experimentais mostra os intervalos de confiança que dão credibilidade aos experimentos. Cabe dizer que sofisma é um pensamento aparentemente válido que leva a conclusões refutáveis.

A religião não apresenta método científico formal, mas conta com a fé. Se por um lado não conseguimos explicar matematicamente um milagre de cura, nem conseguimos reproduzi-lo experimentalmente com estatística aceitável, a crença nele pode parecer insofismável àquele que é objeto da crença. Se o sujeito padecia de um terrível mal, e se vê curado da noite para o dia, pouco lhe importa o intervalo de confiança estatístico. Ele é A amostra. É o ponto único no gráfico. Tampouco lhe interessa qualquer equação matemática que demonstre sua cura.

Então vamos ao e-mail. O texto é o seguinte:

No início da 1ª guerra sino-soviética (1904) os padres ortodoxos russos reuniram na catedral de São Pedro e pediram à Deus Todo Poderoso a destruição do Japão. Em 1923 aconteceu o 1º Grande Terremoto japonês equivalente à umas 10 Hiroshimas que quase acabou com a vida dos zoinhos. Partindo dessas premissas e do delay da resposta divina os astronomos russos calcularam que Deus, se existisse, mora a 4,0 anos-luz daqui, a meio caminho de Andrômeda. (.....) Ensinem às crianças quando forem para a aula de religião, isto é educação.” (Sic)

Suprimi, propositadamente, por questões de espaço, algumas informações do corpo do texto onde demonstravam como chegaram a tal conclusão. Multiplicaram o número de anos decorridos entre os dois eventos pela velocidade da luz – 300 mil km/s – e obtiveram 3,997 anos-luz como distância que Ele estaria da Terra. Ano-luz é uma medida de distância astronômica que representa a distância percorrida pela luz em um ano, equivalente a 9,46 trilhões de quilômetros.
O método dialético segue a tese, a antítese e a síntese, que é, em última instância, a acomodação das melancias durante o andar da carroça. No caso, a tese afirma que Ele estaria a 4,0 anos-luz da Terra porque a luz levaria metade disto para ir e metade para voltar. Identifico muitas melancias amontoadas de forma instável, num dos cantos da carroça. Assumindo que o Universo iniciou do Big Bang, e que a Lei de Hubble é válida, o que de fato é, sabe-se hoje que a explosão primordial ocorreu a mais ou menos 13,7 bilhões de anos. Nada mais lógico, portanto, supor que Ele estaria lá, pela simples razão de não existir outro local conveniente para estar, pois não havia lugar antes do Big Bang, apenas a singularidade. Supondo que após ela, Ele não tivesse nada a fazer em local específico, já que o Universo era apenas uma gosma de melecas químicas em expansão, é de se supor que Ele ficaria no centro do Universo. Uma antítese desta antítese poderia argumentar que Ele viera olhar de perto a Sua Criação, mantidos apenas uns poucos anos-luz de prudente distância. Em contraponto, eu rebateria que não seríamos nós apenas as criaturas. Seria muita presunção supor que Ele estaria nos dando atenção exclusiva. Assim, a distância até ele seria de 13,7 bilhões de anos-luz menos os 19 anos entre os eventos. Se isto não for suficientemente confuso, há mais.

A idade do Universo passou a ser mensurável a partir da Lei de Hubble (1889-1953), astrônomo norte-americano que demonstrou, em 1929, como calcular a distância até galáxias mais distantes, a partir da velocidade com a qual se afastam de nós. Posteriormente, em 1946, Georgy Gamow (1904-1968), russo naturalizado norte-americano, deu suporte à teoria do Big Bang. Partindo dessas datas, verificamos que os padres russos que oraram em 1904, pela destruição do Japão, não poderiam conhecer nem a Lei de Hubble, nem a teoria do Big Bang. Já Ele, por outro lado, certamente lia a Science e a Nature – revistas científicas que publicam essas teorias. Aliás, para que lê-las, se ele teria riscado o fósforo que gerou a explosão primordial?

Pelo cálculo demonstrado no e-mail, os padres russos teriam se utilizado de rezas eletromagnéticas, que viajariam a velocidade da luz, para atingi-Lo. Ele teria enviado o comando de terremoto no Japão também através de ondas eletromagnéticas, como as da luz. As ondas mecânicas, como o som, não se propagam no vácuo. Se Ele estivesse no centro do Universo, estaria a 126,9 trilhões de quilômetros da Terra, distância percorrida em dobro, entre a reza eletromagnética e o terremoto de ondas mecânicas. Com essa tecnologia Ele levaria 13,7 bilhões de anos para ouvir a reza e outro tanto para sacudir o Japão. Os padres russos estariam esperando até hoje, e continuariam por muito mais. Como algo está bem furado nesta tese, cabe negá-la.

A velocidade do vácuo é constante, disso ninguém duvida, nem Ele que a criou – Fiat lux! Portanto, só há duas explicações para que Ele tenha feito tudo em apenas 19 anos. A primeira, da presença casual Dele na vizinhança, já foi filosoficamente refutada. A outra é mais óbvia. Ele estaria não apenas na vizinhança, mas em toda parte. Ou seja, Ele seria Onipresente.

Os astrônomos russos poderiam questionar as razões para que Ele houvesse esperado 19 anos para atender ao pedido dos padres russos. Então, podemos enumerar algumas hipóteses. Ele poderia estar muito ocupado com outra coisa, em outro lugar, apesar de isto ir de encontro à onipresença. Santo Agostinho (354-430) não salvaria esta tese, pois se limitou a explicar o que Ele fazia antes da criação do Universo. Ora, se não havia Universo, não havia tempo, portanto o conceito de antes não faria sentido. O caso russo-nipônico foi diferente, pois já havia tempo, há muito tempo. Talvez Ele houvesse terceirizado o terremoto. Então as empreiteiras subcontrataram outras, que estouraram várias vezes orçamento e prazos, e deixaram o serviço incompleto.

De certeza nisso tudo, apenas uma: em cima de um grande sofisma pode-se produzir um ainda maior!

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